A entrevista foi realizada em 18 de Novembro de 2003, na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa.

Que memórias guarda dos tempos de ditadura do Estado Novo em Portugal?

Tenho uma memória muito viva por várias razões: em primeiro lugar, porque já era crescidinho. Isso corresponde ao meu ensino primário, ao liceu, e depois à Universidade. Já tinha acabado o curso universitário e era assistente aqui nesta faculdade quando ocorreu o 25 de Abril.
Em segundo lugar, vinha de uma família muito política. O meu pai era um político da ditadura. E assim acompanhei num quadro familiar e social, para não dizer no quadro estudantil – talvez mais do que o comum dos meus colegas de geração – o que era, por um lado, a realidade política da ditadura e, por outro, o que era a realidade da contestação desse regime.

Quando iniciou a sua experiência no mundo do jornalismo?

Comecei na «Acção Católica», nos anos 60, numa fase já crítica em relação ao que existia.
Embora com a limitação da censura, colaborei n’«A Capital» , no «Diário de Lisboa», no «Diário Popular», em jornais das colónias, nomeadamente de Moçambique, na «Revista Tempo» (que ainda existe) e, para além dos jornais universitários ou estudantis, colaborei também no jornal «O Século».
Mas, isso deixou de ser uma colaboração pontual (…) para passar a ser um “empenhamento” quando, acabado de me formar, integrei o grupo que arrancou com o «Expresso», sob a liderança de Francisco Balsemão.

Como é que nasceu esse projecto? Foi uma pedrada no charco?

Nasceu desta maneira: o Francisco Balsemão era dono do «Diário Popular» e, às tantas, o tio, que era o principal accionista, vendeu a sua posição. O Francisco Balsemão, que tinha uma posição importante no «Diário Popular», ficou sempre com aquela vontade de fazer jornalismo escrito. Isto aconteceu em 1971 e ele depois esteve um ano (…) a ver o que ia fazer. E é nesse ano que me convida.
Associam-se, por um lado, o «Diário de Lisboa», da família Ruela Ramos, que forneceu a estrutura que de início serviu para imprimir o «Expresso»; por outro lado, a experiência de Francisco Balsemão e a sua capacidade financeira. Depois foi buscar gente mais nova.
Deu-me um papel de destaque porque fui administrador delegado. No início, tinha a minha “página 2”, colaborava na feitura de uma secção chamada “Gente” e depois fui alargando o espaço de manobra.
Mais tarde, viria a ser sub-director, director interino e director efectivo, quando Balsemão saiu.
Mas a ideia era esta: a ditadura ia cair. Era preciso acelerar a mudança. Defendia-se uma via reformista, uma via de transição. Francisco Balsemão – ele próprio – era deputado da Ala Liberal, com Francisco Sá Carneiro, Miller Guerra, com José Pedro Pinto Leite, com João Bosco Mota Amaral e outros que acreditavam que era ainda possível que o dr. Marcelo Caetano abrisse caminho a uma modificação sem revolução.
O «Expresso» apareceu como uma das peças desse puzzle. E havia outras, um pouco mais radicais. Eu, por exemplo, era da SEDES (Sociedade de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social), que foi uma peça mais avançada. (…) Na SEDES havia gente que viria a estar mais tarde no MDP/CDE (Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral), no Partido Socialista, também no PPD e muito poucos no CDS; talvez com uma propensão mais desenvolvimentista, mais tecnocrática, enquanto a posição do «Expresso» era tentar a modificação pela via política, pelo debate e esclarecimento político, pelo debate da questão de África (…), pela liberalização do Regime…
Esta era a expectativa quando o «Expresso» nasceu. Muito rapidamente se viu que a maior parte dos deputados da Ala Liberal renunciou à participação no quadro do regime porque não havia hipóteses. Era o que Francisco Sá Carneiro chamou de “Liberalização Bloqueada”.
Francisco Balsemão ainda ficou até ao fim da legislatura, mas já não se recandidatou (…) e poucos foram os que se candidataram em 1973.
Portanto, o «Expresso» arranca num período ainda de expectativas teóricas quanto à modificação, embora já limitadas, porque o Almirante Tomás tinha sido “reeleito” e a Constituição tinha sido revista em termos limitativos – tendo-se mantido a censura com outro nome – “Exame Prévio”.
Quando nós arrancámos, Francisco Sá Carneiro sai precisamente da chamada Assembleia Nacional. Miller Guerra sai a seguir. Portanto, isto foi concebido em 72, arrancou a seis de Janeiro de 73 e, quando arranca, já muito tinha mudado no país. (…) Tinha que ser um jornal um pouco mais radical, um pouco menos de “transição”, e o que se assiste no «Expresso» é uma afirmação progressiva de uma ruptura em relação ao que existia, que era punida pela “Prova de Página”.

Reportagem: Hugo Correia

Fotografias: Márcio Cabral