Paredes desfiguradas, bairros abandonados, jardins que de jardim só têm o nome, pobreza escondida, cidades cinzentas. Estes cenários são comuns em vários pontos do país. E ao vê-los, a vontade de fazer algo para os corrigir aumenta. Até aqui a questão sempre foi “como?”.

A Internet trouxe múltiplas possibilidades de contactos e de novas interacções, mas despertou, também, dezenas de pessoas para a capacidade – e facilidade – de inovadoras formas de participação política e denúncia. Os blogues são apenas o mais recente e, talvez, o mais bem sucedido caso. Apesar de não haver uma rede que una os blogues das várias cidades, são espaços cada vez mais activos. Fora das lides partidárias, apesar de as discussões muitas vezes resvalarem para o campo político, o objectivo é ter um papel na renovação e na melhoria das cidades.

Em 2004, a Câmara do Porto inaugurou um fórum de discussão para debater o Plano Director Municipal. O espaço virtual foi uma experiência positiva e quando a autarquia o decidiu encerrar, terminado o debate, os utilizadores ficaram “sem casa”, como diz ao JPN Tiago Azevedo Fernandes. Contudo, este membro do fórum decidiu “realojar” quem pretendia discutir problemáticas da cidade: nascia “A Baixa do Porto“. Desde 2004, este blogue, que é mais do que um blogue normal, tem sido um espaço de discussão extremamente dinâmica sobre o Porto e sobre a região Norte.

“Com a participação que houve de muita gente qualificada como arquitectos, engenheiros, mas que ia também de pessoas anónimas a figuras públicas, [o “Baixa do Porto”] foi ganhando alguma dimensão e relevo político”, diz o fundador, Tiago Azevedo Fernandes, também conhecido pelas iniciais, TAF. “A Baixa do Porto” é um espaço aberto a todos que quiserem participar, bastando para isso enviar um e-mail com o texto para o seu “moderador”. “Não é um blogue de autor. É um blogue público, qualquer pessoa pode escrever lá, desde que respeite o tema e me envie um e-mail. O blogue não é meu a não ser no sentido de ser eu o moderador”, afirma.

O blogue atingiu tal relevo que chega a receber o contributo ocasional do vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, Lino Ferreira, e em tempos também contou com as participações do anterior vereador desse pelouro, Paulo Morais. Aquando da discussão sobre a alameda Nun’Alvares, diz Tiago Azevedo Fernandes, “A Baixa do Porto” foi formalmente convidado pela autarquia para comentar o projecto, a par das ordens dos Engenheiros e dos Arquitectos.

Com uma média de 600 visitas diárias, o blogue tornou-se numa referência de informação e de debate na cidade. “Há muita gente com interesse e com capacidade de intervenção, mas que antes desta era dos blogues pensava ‘se calhar sou só eu que penso assim, não vale a pena falar’. As pessoas perceberam que há muita gente, mesmo que não seja a maioria, que pensa da mesma maneira, ou que pelo menos tem ideias compatíveis. Esse papel, a blogosfera veio trazer e é uma novidade. Um artigo no jornal pode ser aceite ou não; no blogue é publicado e acabou”, explica o fundador d’”A Baixa do Porto”.

De Norte a Sul

Surgiram outros blogues sobre o Porto, de debate ou não, como o “Ruas da minha terra“. E noutros pontos do país, este fenómeno também se gerou. Na ponta a Sul do país, “A Defesa de Faro” foi criada em Fevereiro de 2006, com o objectivo “de juntar à distância de um clique todos aqueles que amam profundamente a cidade”, diz ao JPN um dos dinamizadores do blogue, Nuno Graça, que admite a inspiração em projectos como “A Baixa do Porto”.

Nuno Graça salienta a importância de serem criados novos espaços de participação popular, tomando em conta aquilo que muitos vêem como sendo o crescente afastamento entre as pessoas e os poderes autárquico e central. “O nosso blogue serve só para dar um espaço a pessoas que poderiam escrever em locais de grande visibilidade, mas não tem essa oportunidade, assim como, para dar a conhecer histórias de Faro”, explica, por e-mail.

“Uma cidade sem memória, sem história, é um subúrbio condenado ao desaparecimento. Por isso, este blogue é feito por todos e espera todos os dias ter novas histórias para contar. E também espera lhe cheguem ideias construtivas e alguns problemas que não nos cansaremos em denunciar”, declara Nuno Graça.

Blogues como voz da população

Os blogues urbanos não são um acontecimento confinado às maiores cidades. Em Santo Tirso foi criado o “Santo Tirso SemVida“, num trocadilho feito a partir do slogan “Santo Tirso ConVida”. “Santo Tirso encontra-se sob o mesmo governo há varias décadas, fazendo com que a acomodação deste transforme Santo Tirso num concelho estagnado”, acusa Alberto Castro, o fundador do blogue, que também aceita colaborações de qualquer pessoa.

O dinamizador deste espaço virtual afirma ao JPN que tem recebido um crescente apoio da população nos temas discutidos no blogue e explica que pretende que o “Santo Tirso SemVida” seja “a voz – politicamente independente – do descontentamento dos vários cidadãos tirsenses que reclamam uma mudança para Santo Tirso”. Apesar de reconhecer que há vários participantes que fazem parte da oposição local, Alberto Castro acredita que “a actividade política deverá ser exercida nos locais próprios e não estar excessivamente dependente da utilização das potencialidades da Internet”.

“É esta a cidade onde quer viver?”

Também em Lisboa começou a aparecer este tipo de blogues. Em Março deste ano nascia o “Observatório da Baixa“, chamando a atenção para o facto de a Baixa voltar “a estar na ordem do dia da agenda dos poderes públicos. Voltam as ideias, as presunções e as tentações. Umas novas, outras velhas. Há mais de 30 anos que assim é.” No primeiro post acrescentavam: “cumpre-nos, pois, enquanto alfacinhas, zelar pela Baixa e é isso que faremos”.

O fenómeno ampliou-se e teve aquilo que pode ser visto como o seu pico com a fundação do “Lisboa S.O.S.“. Com o subtítulo de “É esta a cidade onde quer viver?”, os seis autores do blogue não se prolongam em escrita. Preferem a fotografia para mostrar e denunciar a sujidade da cidade, a falta de civismo, a degradação do espaço urbano.

Um dos membros do blogue, que preferem manter o anonimato, afirmou, em entrevista ao JPN, que “‘mostrar’, através de fotografias, que não mentem” é mais importante “do que ‘debater’ com argumentos que visam objectivos tantas vezes de outra natureza – essencialmente, política”. “E, além disso, mostrar imagens já é uma forma de contribuir para qualquer debate. Com uma vantagem: é a forma mais objectiva possível. Contra fotos não há argumentos”.