Acompanhar a vida escolar dos alunos do Ensino Básico. Este é o grande objetivo do projeto de voluntariado estudantil, levado a cabo pela Universidade do Porto (UP), em parceria com a Câmara Municipal do Porto (CMP). Em 2007, ano da criação da iniciativa, havia duas escolas parceiras. Este ano são cinco aquelas que abrem portas aos voluntários.

Se por um lado são constantes as polémicas que envolvem a diminuição de apoios estatais ao Ensino Superior e às escolas públicas, por outro convém salvaguardar as ajudas que vêm de dentro. De quem sabe o que é ensinar e, sobretudo, de quem sabe o que é aprender.

Este ano são 70 os estudantes da Universidade do Porto que utilizam uma ou duas horas da semana para ajudar. Cada voluntário fica encarregue de orientar uma criança com dificuldades de aprendizagem. Maria Clara Martins, que estabelece a relação entre a Reitoria e as escolas, explica ao JPN que o objetivo é que cada criança ultrapasse as dificuldades de estudo com a ajuda de um estudante universitário. A  coordenadora do projeto esclarece que a meta tem sido atingida, e que “só assim” o trabalho podia “durar tantos anos”.

Já para Pedro Múrias, falar-se em “apoio escolar” como primeiro objetivo é uma forma de “vender mais” a ideia. Para o antigo voluntário, o mais importante é debater as dúvidas e dificuldades que o dia a dia traz. Pedro tem 37 anos e foi o voluntário mais velho no tempo dele, entre 2010 e 2013. O empresário garante que aprendeu tanto quanto ensinou, e que o objetivo maior era “ajudar as tutorandas enquanto pessoas”.

Pedro Múrias ressalva a dedicação da universidade, mas tece algumas críticas à coordenação “deficiente e vergonhosa” das escolas e ao “fraco envolvimento das faculdades”, que não potenciam a utilização dos meios disponíveis. O antigo voluntário indica que gostava de ver a Federação Académica do Porto (FAP) e as associações estudantis envolvidas no programa, e aponta uma aposta nas redes sociais como ferramenta de comunicação benéfica para chegar aos jovens. Maria Clara contrapõe.

Um projeto de “valorização humana”

Ainda assim Pedro “não doura a pílula” e afirma que o envolvimento neste e outros projetos é essencial para o currículo de quem estuda áreas pedagógicas. Apesar disso, o que marca é a “valorização humana”, sobretudo para quem vem duma “realidade protegida” e dum contexto sociocultural “superior”, e teve de aprender a lidar com “os contextos familiares nada saudáveis” das tutorandas.

O antigo estudante dá exemplos: lidou com “o drama da violência doméstica”, com a “pressão social sobre as meninas”, com a “discriminação xenófoba” e com o “bullying”, com o qual já tinha lidado na primeira pessoa.

Além de o projeto o ter feito “crescer”, permitiu-lhe apontar algumas falhas no ensino português. Pedro menciona que “é preciso investir na educação desde o pré-escolar”, para “evitar que os alunos cheguem ao nono ano com dúvidas de quinto”.

Em relação ao futuro, Pedro Múrias acredita nas gerações vindouras e afirma que “o projeto deve continuar a crescer com tutores especializados” das áreas da Educação e da Psicologia. Ainda assim, considera que o envolvimento de estudantes “das Artes e das Ciências” é igualmente importante “para que os alunos possam lidar com vários estímulos”.

Acompanhamento “individual e personalizado”

Que o diga Carolina Queirós voluntária pela primeira vez na Escola E.B. 2/3 Gomes Teixeira. A estudante de Engenharia Agronómica na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) viu “potencial” no projeto mal recebeu o “e-mail” de recrutamento. A ideia de “um aluno poder ensinar outro aluno” agradou Carolina que decidiu envolver-se desde logo no projeto.

Passado o primeiro período do quinto ano, reconhece que a mais-valia da iniciativa é o acompanhamento “individual e personalizado”, que os professores não conseguem garantir na sala de aula. Carlos, o tutorando da “professora Carolina” – como a trata – diz o mesmo.

Às sextas-feiras tem encontro marcado para estudar, por norma, Matemática. É a disciplina que lhe traz mais dificuldades e que a Carolina melhor domina. Aos poucos, “vai havendo evoluções”. Ao contrário do caso de Pedro Múrias, Carolina vai ao encontro de Maria Clara Martins ao dizer que o seu papel “não é ser psicóloga”, e que, ainda que o possa fazer, “o Carlos tem amigos e uma boa estrutura familiar” com quem “pode contar para tudo”

“Mas cada caso é um caso”, termina Carolina, assumindo que “no fim de contas, o objetivo dos tutores é o mesmo”, ajudar no que for preciso.

Além do Projeto de Voluntariado Estudantil, a Universidade do Porto propõe mais sete programas de voluntariado e apoia vários núcleos e grupos de faculdades, que apresenta esta segunda-feira, dia 29 de fevereiro, na mostra de voluntariado. Organizado pela Comissão de Voluntariado da UP, o “dia extra do ano” é dedicado às ações de solidariedade e vai contar com a presença de mais de 20 organismos em vários espaços da cidade.

A UP assume assim “a importância social e cultural do voluntariado”, bem como o seu papel de responsabilidade na promoção do bem comum. De acordo com os “Princípios de Enquadramento de Voluntariado da U.Porto”, a instituição estimula o envolvimento dos estudantes nas ações de voluntariado enquanto assegura os direitos e deveres dos mesmos.

Além da UP, também a Universidade Católica (UCP) e o Instituto Politécnico do Porto (IPP) levam a cabo o Projeto de Voluntariado Estudantil, um programa que apela ao envolvimento de escolas, faculdades, alunos e encarregados de educação.

Artigo editado por Sara Gerivaz