Há já vários anos que o grupo de investigadores do Instituto de Engenharia Biomédica (INEB), integrado no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (I3S), desenvolve projetos relacionados com o HIV. O mais recente, destinado às mulheres, tem como foco a prevenção da transmissão sexual do vírus e foi distinguido entre cerca de 60 candidatos, na passada terça-feira, com uma bolsa do programa Gilead Génese.

O objetivo é criar uma alternativa ao medicamento Truvada, atualmente recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e por alguns países na prevenção do vírus, que por ser administrado oralmente e se alastrar pelo organismo tem alguns efeitos secundários, como problemas renais.

Segundo José das Neves, um dos investigadores pertencentes à equipa, estes filmes vaginais são semelhantes a “uma película aderente de cozinha”, que a mulher “deve aplicar na zona genital antes da relação sexual”, podendo ter um efeito protetor “também quando aplicado à posteriori”. “À partida, a circunscrição à zona vaginal faz com que os filmes sejam mais seguros que os comprimidos Truvada, porque não chegam ao organismo. A nível local podem existir contrapartidas se o produto não for bem desenvolvido. Faremos tudo para que isso não aconteça”, salienta José das Neves, ao JPN.

Mas a grande inovação está na utilização de nanopartículas, que “aumentam o tempo de resistência dos fármacos na vagina”, permitindo um “maior grau de proteção”. “Tentámos incorporar tenofovir e emtricitabina, dois fármacos do Truvada, em nanopartículas que depois serão colocadas dentro dos filmes”, esclarece o investigador.

Para além de maior proteção e segurança, José das Neves destaca a mais-valia do conforto. “Em contacto com os fluidos vaginais, o filme desagrega-se muito facilmente. A mulher e o parceiro não sentem”, explica. Algo que para o investigador pode ser reconhecido como “uma vantagem nos países menos desenvolvidos”, onde “a mulher muitas vezes não tem capacidade de negociar a utilização de preservativo e tem assim uma forma de proteger-se”.

Contudo, o investigador alerta para o facto de o filme vaginal não ser substituto do preservativo, devem ser utilizados em conjunto “para uma proteção quase completa”.

A população dos países em desenvolvimento foi o público-alvo pensado pela equipa de investigadores, nomeadamente a dos países subsarianos, onde 25% da população está infetada pelo vírus. No entanto, “a abordagem é global” e Portugal pode também beneficiar desta inovação: “Em Portugal existem aumentos em alguns grupos específicos, em particular na população idosa, devido ao recurso a sexo pago. Para além de se infetarem, ainda trazem a infeção para casa e queremos atuar nesses casos”, assegura José das Neves.

A equipa de investigadores vai investir o dinheiro em “material e equipamento” que permitam ultimar o protótipo dos filmes vaginais e testá-lo, depois, em animais. Se tudo correr bem, esperam avançar com os testes clínicos e disponibilizar o produto em cinco anos.

Lembre-se que em 2014, cerca de três milhões de novos casos de SIDA foram registados a nível mundial. Em Portugal, o número de novos casos diminuiu 11% em relação a 2013.

 

Artigo editado por Sara Gerivaz