Foi um dos primeiros infetados com o novo coronavírus em Portugal. O professor, residente no Porto, recusou sempre falar à imprensa, para preservar a privacidade da família e dos alunos. Um ano volvido da viagem a Itália que o pôs em contacto com o vírus, falou em exclusivo ao JPN, sob anonimato.

Ao longo da entrevista, o professor partilhou a experiência de ter contraído a doença quando pouco ou nada se sabia ainda dos seus efeitos, ou sequer se imaginava o impacto global que a Covid-19 viria a ter.

Meses depois do contágio, o vírus foi vencido. Os efeitos da doença, contudo, persistem, em silêncio. Manifestam-se no cansaço inexplicável, na dificuldade em respirar, em sequelas que perduram mesmo depois do teste negativo: “Nunca senti uma recuperação total”.

Ter sido um dos primeiros infetados em Portugal deu-lhe uma visão mais ampla e imediata sobre o que se estava a passar no país e no mundo, mas não o imunizou relativamente aos impactos psicológicos da infeção, que têm sido marcantes.

Contudo, esta experiência tem-lhe ensinado também a encarar a vida de outra forma, e o sentimento de “desesperança”mistura-se com a sabedoria aprofundada de quem aprendeu a viver cada dia como “se fosse o último”.

JPN – Há cerca de um ano, em fevereiro de 2020, preparava-se para embarcar numa viagem para Itália que iria mudar a sua vida. Nessa altura, já tinha ouvido falar do vírus?

Sim. Ouvíamos falar muito do vírus, mas como algo longínquo, que acontecia na Ásia. Lembro-me daquela história do cruzeiro [o Diamond Princess] que estava ao largo do Japão, e que ainda não se sabia muito bem o que fazer com aquelas pessoas.

Era inimaginável o que estava prestes a acontecer-nos. Eu tinha este curso marcado em Itália há uns seis meses e tenho a certeza que se fosse uma semana depois já não conseguiria embarcar. Estava, sem saber, à beira do abismo.  

JPN – Mas estava apreensivo com o vírus ou nem por isso?

Não, não estava de todo. Quando viajei, Itália não era referida nas notícias como se fosse um problema real. 

JPN – E como decorreu a viagem?

Foi uma viagem de quatro dias, na terceira semana de fevereiro, apenas para ministrar um curso numa universidade.  Não havia nenhum tipo de restrições, pelo menos que me apercebesse. 

Era inimaginável o que estava prestes a acontecer-nos. Estava, sem saber, à beira do abismo.  

Os cafés estavam abertos, os restaurantes estavam cheios, as pessoas andavam na rua, tudo perfeitamente normal.  Lembro-me, inclusive, de um jogo da Liga dos Campeões [Atalanta-Valência] que decorreu à porta aberta, tudo perfeitamente normal. 

Mas na televisão já havia debates e, no aeroporto em Milão, mediram-me a temperatura à chegada. Foi algo que me marcou. 

JPN – Sabe como ficou infetado?

Sei. Não há grandes hipóteses de ter sido infetado em Portugal. Obviamente que fui infetado em Itália. Regressei e tive pequenos sintomas que se foram agravando, sintomas muito estranhos.

JPN – Que sintomas?

Noites muito mal dormidas, com sensações de febre. Acordava com um calor imenso, quatro, cinco vezes por noite. E tinha muitos arrepios de frio durante o dia, febres baixas. 

Fico poucas vezes doente, mas quando fico é a sério, de maneira que desvalorizei aquilo. Achei que era uma constipação normal.

Mas o principal sintoma era uma dor de cabeça muito grande, na zona frontal, na testa, que me perturbava imenso o trabalho, me impedia de estar concentrado.

JPN – Estava a explicar como ficou infetado…

É simples, com o meu colega italiano. Lembro-me de ter chegado a Portugal e no dia seguinte trocarmos mensagens. Ele disse-me: ‘Estou com uma gripe, caí de cama’. Mas descansa que não é coronavírus’. [risos] Brincámos com aquilo, até, numas mensagens do Whatsapp.

‘Descansa que não é coronavírus’.

Entretanto, passaram quase quinze dias e começaram a chegar notícias terríveis de Itália. Que o vírus já estaria muito mais disseminado do que se pensava que estivesse.  Falava-se em particular da Lombardia, a região onde eu tinha estado. Comecei a ficar realmente preocupado.

Mas o que mais me chamou a atenção foi o estado de saúde de um amigo meu, aqui em Portugal. Uma pessoa bastante atlética, que tem uma saúde, como se costuma dizer, de ferro. Um dia liga-me e diz: ‘Não me consigo levantar. Nunca senti isto’.

Tínhamos jantado juntos os dois, três dias depois de ter chegado de Itália. Liguei para a Saúde24, mas nenhum dos meus sintomas estava em consonância com aquilo de que se falava na altura – eu não tinha tosse, não tinha diarreia ou febres altas. Disseram-me: ‘Sossegue, não se preocupe’. Eu sosseguei, mas o meu colega continuava a ficar pior.  

JPN – E quando é que percebe que está infetado?

Pouco tempo depois, às seis ou sete da manhã, o meu colega italiano envia-me uma mensagem a dizer que tinha entrado no hospital e que tinha sido diagnosticado com coronavírus.

A partir daí, percebi. Obviamente que já não tive mais ilusões sobre o que se estava a passar. Liguei para a Saúde24 e já não saí mais de casa até que me viessem buscar. 

Começou assim a saga. Levaram-me para o Hospital de São João, onde estive 8 dias em vigilância profilática. Na altura, nos primeiros casos, era assim que acontecia: isolavam-nos a todos. 

Tenho consciência que, se fosse hoje, seria apenas mais um caso e um caso bastante leve, que se curava em casa perfeitamente, sem problema nenhum.

A incerteza relativamente à doença era terrível. O sentimento de culpa trespassou-me imenso.

Mas na altura, sendo eu, inclusivamente, uma pessoa ligada ao ensino, obviamente mexeu com as instituições onde trabalho, mexeu com os meus alunos, pô-los em alvoroço, em constante sobressalto.

Foram tempos difíceis. Não foi fácil lidar com isto na altura.

O Hospital São João, no Porto, é o hospital de referência para a Covid-19 na região Norte. Foto: Patricia Garcia

 

JPN – Esse foi o maior impacto que sentiu? No contexto profissional?

Sim. E familiar, também. O jornalismo andava à procura de furos jornalísticos, é normal, mas eu sempre tive uma posição muito reservada, porque a minha instituição teve que fechar portas depois de me ter sido diagnosticado coronavírus. 

Foi complicado lidar com as solicitações constantes à minha família, aos meus alunos, para darem entrevistas.

Também se fizeram julgamentos sumários na praça pública. Muita gente, inclusive gente próxima, julgou-me por ter ido para um sítio para onde não devia ter ido, perguntando-se como é que eu tinha feito aquilo, passando-me quase a responsabilidade do coronavírus estar hoje em Portugal… Infelizmente houve gente desta estirpe.

JPN – O que foi mais difícil de gerir na altura? Esse foco mediático, a incerteza relativamente à doença…

A incerteza relativamente à doença era terrível. Estávamos fechados no hospital, em dez metros quadrados ou menos, durante um dia inteiro, víamos astronautas a entrar pelos nossos quartos de pressão negativa dentro.

A angústia de não haver tratamento e não sabermos exatamente o que vai acontecer, a angústia de ver os meus colegas infetados, quase todos com sintomas mais graves que eu… Não sabermos muito bem o que ia acontecer e como seria o dia seguinte. Essa angústia era a pior de todas, naturalmente.

Mas também a angústia de estarmos com o telefone ao lado e sabermos que a qualquer momento podia ser informado que tinha infetado alguém da minha família, entre os meus amigos, os meus alunos, era algo que me dava um desassossego brutal. 

As pessoas divertem-se a dizer mal todos os dias de tudo o que existe em Portugal e do serviço de saúde. Batem, esfolam, matam. Eu gosto de falar bem. O Hospital de São João é incrível.

Cada vez que recebia um telefonema ou uma mensagem, julgava que me iam dizer que mais alguém estava infetado. O sentimento de culpa trespassou-me imenso durante aquela semana em que estive no hospital e nos meses seguintes. Foi difícil de conviver com isso tudo.

 JPN – Como foi o acompanhamento médico na altura?

Fui espantosamente bem tratado. As pessoas divertem-se a dizer mal todos os dias de tudo o que existe em Portugal e do serviço de saúde. Batem, esfolam, matam. 

Eu gosto de falar bem. O Hospital de São João é incrível. Eu vou muitas vezes aos hospitais privados e nunca na minha vida fui tratado como ali. Essa é a melhor recordação que guardo.

JPN – Ficou com sequelas da doença?

Agora que passou um ano da minha infeção sinto que realmente as sequelas começam a dar um pouco de tréguas. Mas nunca senti uma recuperação total.

 JPN – Pode concretizar?

Por exemplo, as dificuldades de concentração, uma sensação de extremo cansaço ao longo do dia. Pensava que seria ansiedade, mas era realmente a parte respiratória que não estava bem.

Eu vi a TAC que me fizeram e os meus pulmões eram praticamente uns pulmões de um fumador de 20 anos. Estavam negros.

Existe um lado silencioso da doença. Sentia-me mais ou menos bem. Tinha febres, mas eram muito baixas. Não se dá muito pela doença, mas ela está lá, ela existe.

Não sou um bom marido, não sou um bom pai, não sou um bom professor. A gente chega ao fim do dia e sente que não faz nada direito. É uma desesperança.

Tudo isto criou uma grande ansiedade também ao longo deste último ano, até devido à minha profissão, que lida muito com a parte respiratória. Nem sempre conseguia desempenhar as minhas funções da forma mais correta.

Este período tem sido aquilo que os portugueses chamam de desenrasque. Porque eu não faço nada direito. Não sou um bom marido, não sou um bom pai, não sou um bom professor. A gente chega ao fim do dia e sente que não faz nada direito. É uma desesperança. Mas temos que lidar com isso.

A vacina é hoje a maior esperança contra a Covid-19. Há um ano, quase nada se sabia sobre a doença. Miguel Marques Ribeiro

 JPN – Acha que ter sido infetado numa fase tão precoce, fê-lo ter uma visão diferente de tudo isto que estamos a viver?

Teve, claro. Deu-me uma perspetiva bastante mais ampla sobre o coronavírus. Comecei a discutir o coronavírus muito antes das outras pessoas e vivi a pandemia na angústia do meu silêncio. Ora no hospital, ora sozinho, isolado em casa, porque estive mais de cinquenta dias até dar negativo.

Fiz sete, oito testes, seguramente. Cada teste que vinha era uma angústia terrível antes de saber o resultado. Foi uma angústia muito grande para mim, para a minha família.

Mas o facto de ter sido infetado muito cedo criou em mim também um sentimento de amor-ódio. A certa altura já nem conseguia ver as notícias. Cheguei a atirar com um sapato à televisão. Já não suportava. As pessoas também têm o direito de se fartar.

JPN – E o que pensa da situação atual?

Ando exasperado pela vacina. Acho que a comunidade científica tem feito um trabalho extraordinário e nós temos que confiar neles.

 JPN – A possibilidade da reinfecção preocupa-o?

Sim, claro que sim. Há um mês fiz um teste serológico. E foi muito bom, deu-me uma presença de anticorpos em número considerável, que me permite enfrentar com alguma tranquilidade o dia a dia, mas as novas variantes são de facto um problema. 

JPN – De toda esta experiência, há algo positivo que tenha aprendido?

Creio que o fator de aprendizagem maior é realmente aquela expressão Carpe Diem. É viver o dia como se fosse o último. Nós somos uma gota de água no oceano e temos que viver a vida. 

Percebi que temos que ter tempo para meter mais paixão naquilo que fazemos, ser um pouco mais afetuosos, dizer às pessoas o quanto gostamos delas.

Artigo editado por Filipa Silva