O ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Ernesto Araújo, demitiu-se esta segunda-feira, durante uma reunião com o presidente Jair Bolsonaro. Após o encontro, foi o próprio Araújo que comunicou a saída aos seus assessores numa outra reunião no Itamaraty, a sede do ministério, em Brasília. Mais tarde, publicou também um carta no Twitter.

Era um dos últimos representantes da chamada “ala ideológica” do Governo de Bolsonaro, um grupo de extremistas de direita ligados aos mais conservadores movimentos evangélicos, grupo esse liderado pelos filhos do presidente. Bolsonaro não queria demitir Araújo exatamente por gostar do radicalismo, mas perante a ameaça de paralisação do seu governo acabou por ter de aceitar a demissão.

Esta decisão já se esculpia nos últimos dias. Esta segunda-feira, um grupo de senadores disse estar a preparar um pedido formal junto do Supremo Tribunal Federal para destituir o ministro.

A oposição a Araújo está relacionada com a falta de empenho do ministro na negociação internacional para a aquisição de vacinas. “O actual chanceler não só não atuou diligentemente para representar o país nos fóruns internacionais em que era necessário o seu empenho para conseguir vacinas e materiais na quantidade e tempo desejados, como criou obstáculos com um importante parceiro fornecedor”, escreveram os senadores, referindo-se à China, que apoiou a produção de vacinas em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo.

Nos últimos dias, o ministro tinha entrado em rota de colisão com vários deputados e senadores. Araújo chegou a sugerir que a senadora Kátia Abreu, presidente da comissão de Negócios Estrangeiros do Senado, lhe disse para favorecer a China nos contratos de concessão da tecnologia 5G para receber um tratamento mais favorável pelos senadores.


Pouco antes, numa audiência pública no Senado em que Araújo esteve presente, a continuidade do ministro no cargo tinha sido questionada e foram muitos os senadores a criticarem a sua atuação. Alguns chegaram a ameaçar bloquear todas as nomeações para as embaixadas, que têm de ser aprovadas pelo Senado. A acusação de Araújo foi muito mal recebida pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, um importante aliado de Bolsonaro.

A reputação de Ernesto Araújo – que era um diplomata pouco conhecido antes de ser convidado por Bolsonaro para chefiar o Itamaraty – já era baixa junto de vários setores políticos e empresariais brasileiros, que o consideravam muito radical. Araújo é um seguidor do escritor Olavo de Carvalho, um dos principais ideólogos da extrema-direita brasileira, conhecido por propagar teorias da conspiração sobre a China ou sobre alegados conluios da esquerda sul-americana para derrubar governos.

Antecessores de Araújo eram consensuais nas críticas ao chefe da diplomacia brasileira, que viam como o protagonista de uma quebra da tradição do Itamaraty de não hostilizar os países vizinhos e de tentar encontrar pontes com as potências globais.

A demissão é também um produto da negociação constante que Bolsonaro está a levar a cabo com o chamado “centrão”, o grupo de deputados que apoia atualmente o Governo e dispõe da maioria necessária para blindar o Presidente de uma destituição ou da abertura de uma comissão de inquérito. Na semana passada, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, fez um discurso muito crítico do Governo e pediu mudanças, sob pena de poder vir a viabilizar algum dos mais quase cem pedidos de impeachment que chegaram ao Congresso.

A imprensa brasileira diz que a manutenção do apoio do “centrão” está dependente de mexidas na composição do Governo e os Negócios Estrangeiros é uma das pastas em que estes deputados querem ter influência.

Após o anúncio da saída de Araújo, dois nomes de diplomatas despontaram em Brasília como os favoritos para ocupar o cargo. Um deles é o do embaixador do Brasil na França, Luiz Fernando Serra, e o outro do embaixador nos EUA, Nestor Forster.

Bolsonaro faz mudanças

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, iniciou esta segunda-feira uma reforma ministerial ao alterar a titularidade das pastas da Justiça, Casa Civil, da Defesa, Relações Exteriores, da Secretaria de Governo e da Advocacia-Geral da União.

As alterações foram confirmadas num comunicado emitido pela Secretaria Especial de comunicação Social, vinculada ao Ministério das Comunicações do Brasil.

Para a Casa Civil da Presidência da República, Bolsonaro nomeou Luiz Eduardo Ramos, atual ministro da Secretaria de Governo.

O Ministério da Justiça passará a ser liderado pelo delegado da Polícia Federal Anderson Torres, atual secretário de Segurança Pública do Distrito Federal.

Para o Ministério da Defesa seguirá o general Walter Souza Braga Netto, atual chefe da Casa Civil e para a Secretaria de Governo da Presidência da República irá a deputada federal Flávia Arruda, do Partido Liberal (PL), vinculado ao “Centrão” [bloco informal que reúne parlamentares de partidos de centro e centro-direita], que sustenta a base aliada do chefe de Estado no Congresso.

O novo ministro das Relações Exteriores será o embaixador Carlos Alberto Franco França, diplomata de carreira que estava na assessoria especial da Presidência da República, em substituição de Ernesto Araújo.

Por fim, a chefia da Advocacia-Geral da União (AGU), órgão que defende o Executivo em processos judiciais, passará para André Mendonça, que já liderou o órgão no início do Governo e está atualmente no Ministério da Justiça.

O Ministério da Defesa anunciou também, esta terça-feira, a saída dos comandantes das três Forças Armadas: Edson Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antonio Carlos Moretti Bermudez (Força aérea).

Na nota, o ministério não partilhou o motivo desta saída, nem anunciou os substitutos. O anúncio acontece um dia após Fernando Azevedo e Silva ter deixado o cargo de ministro da Defesa.

Esta é a primeira vez desde 1985 que os comandantes das três Forças Armadas abandonam o cargo ao mesmo tempo, sem ser em período de troca de governo.

Artigo editado por João Malheiro