Por baixo da fantasia de Kelly Ke, Elektra Ashford, Wanda Morelly, Big Mama e Lilly Prozac estão cinco homens comuns unidos pela mesma paixão: a arte do transformismo. Podem não viver da arte, mas entregam-se a ela com profissionalismo. "Irmãs" ou rivais? O mundo, como o 'outfit' de qualquer 'drag', não é a preto e branco. Esta é a quarta de uma série de reportagens que o JPN volta a dedicar ao tema das comunidades.

Fora do palco, são o André, o Alberto, o Bruno Alves, o Bruno Sampaio, o Eugénio. Em cima do palco, mudam literalmente de figura. São drag queens da noite do Porto, apaixonados pela arte do transformismo.

Uma arte de purpurinas, acessórios, perucas, saltos altos, outfits criativos e muita excêntricidade. Um mundo de “performers que, acima de tudo, querem dar show, causar impacto.

Ser drag queen é, de algum modo, ser o artista completo, dizem-nos. É ser maquilhador, cabeleireiro, designer, ator, bailarino, cantor. É ser o que se quiser.

“Ser drag queen é um êxtase”, resume André Americano, o homem por trás de Lilly Prozac, a drag queen em que se transforma em dias de espetáculo no Zoom Porto. “Eu vivo coisas como Lilly que era impossível vivê-las como André”, acrescenta.

Ser drag queen, por outra parte, não traduz a vontade de se ser mulher, mas sim o gosto pela transformação e pela criação de personagens. “Nunca sonhei ser mulher, nunca sonhei ser trans. Identifico-me bem com o meu corpo”, conta Alberto Teixeira, o mais experiente de todos, que encarna a “Wanda Morelly” enquanto drag residente no Lusitano Bar.

“Isto é arte e a arte é aberta a toda a gente, independentemente do género, sexo ou da orientação sexual”, completa Eugénio Giesta, “Elektra” de nome artístico.

Quem são, como despertou a paixão pela arte, o que mais os fascina nela e como foi a primeira vez. Cinco drag queens do Porto contam-nos, na primeira pessoa, e num primeiro momento sem qualquer caracterização, como é que para elas tudo começou.

A comunidade das drag queens é pequena em Portugal. Serão à volta de cem as pessoas que se dedicam à arte, dizem-nos. Na cidade do Porto, segundo os testemunhos que ouvimos, existirão cerca de 20 e nenhuma se ocupará da atividade a tempo inteiro.

Afirmam, sem pensar duas vezes, que são drags por diversão, porque, mesmo que quisessem fazer da atividade vida, não seria rentável.

O investimento de tempo e dinheiro é enorme, dizem. É preciso uma semana completa para preparar um espetáculo de uma ou duas noites. É preciso uma semana inteira para construir um figurino que depois é usado durante oito horas. São precisas três horas para se montar a personagem.

Para ter um vislumbre sobre como se faz, fomos aos bastidores ver como Wanda Morelly, Elektra Ashford, Big Mama, Lilly Prozac e Kelly Ke se transformam em frente ao espelho.

Wanda Morelly: “Desafiei mentalidades”

Wanda Morelly caminha para os 44 anos de percurso artístico. O seu escultor, Alberto Teixeira, tem 62 anos e é do Porto. Já faz arte há mais tempo do que não faz, uma vez que enveredou pelo mundo do espetáculo como transformista em setembro de 1977, três anos após o 25 de Abril. É uma das grandes impulsionadoras do transformismo em Portugal. 

A própria apresenta a sua personagem como o oposto do criador. A Wanda desinibida, comunicativa e ”louca” diverge do Alberto tímido e recatado. No palco, quem emerge é a Wanda, no quotidiano é o Alberto.

Com mais de quatro décadas de experiência, adequou-se aos tempos modernos e a um público cada vez mais exigente: “Hoje veem um vestido, daqui a uma semana não querem ver o mesmo”, explica a drag queen

Viveu do espetáculo durante cerca de 30 anos. Hoje, a história é diferente: “Ninguém vive do espetáculo de transformismo em Portugal”, considera. Acabou por tirar o curso de ourivesaria, seguindo a tradição da família. Wanda lamenta que, depois de tanto tempo,  o transformismo se tenha tornado o seu plano B. 

Em jovem, viajou pela Europa em trabalho, mas atualmente é no Porto que a podemos ver. Começou a atuar no Lusitano Bar a convite, para participar no Drag Festival, e tornou-se habitual a sua presença naquele espaço de diversão noturna do Porto. Para Wanda, é “uma casa fabulosa” onde toma conta dos espetáculos à quarta-feira. No entanto, faz também outras performances pontuais, fora da sua “residência”. 

Qual é o segredo para tanta longevidade? A drag queen aponta o profissionalismo e a exigência que impõe a si própria. Acredita que o espetáculo se inicia no camarim enquanto se arranja: “Não permito más disposições no camarim, até porque tenho de entrar em palco, em cena, sempre com um sorriso rasgado e arrebatador”. Ainda se lembra de como foi a sua primeira vez, na praia da Mira, dos nervos, mas também do quanto gostou. 

Desafiou mentalidades, arredou o estigma da orientação sexual e pôs as mãos na massa. Mas, acima de tudo, quer ser lembrada como “um profissional, uma pessoa com muito respeito à arte, amigo dos meus amigos, verdadeiro e honesto”.

Elektra Ashford: “I want to rule the world

É natural do Porto e tem 30 anos. De Eugénio Giesta nasceu a “performer” Elektra Ashford. Segundo a drag queen, “a criatura é a antítese do criador” – a Elektra é sexual, confiante e extrovertida, características que Eugénio não associa a si próprio.

A identidade artística de Elektra Ashford absorve inspirações de diferentes mundos. O primeiro nome vem do complexo de Electra, de Freud, um conceito que cativou a sua atenção nas aulas de Psicologia na Universidade do Porto (agora está a tirar o doutoramento). Já o apelido está relacionado com a saga de videojogos “Resident Evil“, da qual é fã.

No palco, dá-se uma “transformação sobretudo psicológica”. “É um portal para outro mundo” que leva a drag queen a assumir uma postura confiante. Madonna, Britney Spears e Shakira são as figuras que inspiram os seus shows.

A indumentária de uma profissional do transformismo não é barata. Trata-se de um “investimento” considerável que, no caso de Elektra, resulta em gastos que andarão pelos “dois mil euros” em perucas e “700 euros” em maquilhagem. A drag queen explica que é praticamente impossível recuperar o dinheiro gasto num só espetáculo e que, por isso, é necessário “fazer render uma roupa” ao longo do tempo.

Nos últimos anos, é no Lusitano Bar que tem marcado presença mais assídua, ainda que não tenha “residência fixa”. Começou nesse mesmo estabelecimento, no primeiro concurso do Porto Drag Festival. Em 2019, começou a integrar as quartas-feiras no Lusitano, sob o comando de Wanda Morelly.

Do espetáculo para a vida real leva algumas amizades, apesar de existir uma “competição saudável”. Mesmo assim, Elektra não maquilha as palavras quando questionada sobre como caracteriza a comunidade de drag queens do Porto: “é um ninho de cobras”, com rivalidades “puras e duras” e irmandades que nem sempre são verdadeiras.

Num universo que não é só brilhos e purpurinas, a performer deixa a sua marca, com o objetivo de, um dia, seguindo os passos de quem a inspira, “governar o mundo”

Big Mama: “Tenho muita originalidade”

Em 2009, Bruno Alves, natural de Amarante, e hoje com 29 anos, deu origem a Big Mama. Fugindo à regra, assume-se como uma artista cómica. “Dá-se bem com toda a gente, é humilde e consegue fazer rir os outros”, apresenta-se a drag queen.

Era para ter outro nome, mas a ideia de se chamar Daisy Dangerous caiu por terra para dar lugar à Big Mama, nome baseado no filme homónimo que em português teve o título “O Agente Disfarçado”.

Inspirado por um filme de comédia surgiu uma drag queen cómica. Big Mama conta que faz “várias pesquisas [online] para retirar os lados mais cómicos” das pessoas e aplica-os aos seus espetáculos. Assume esse cariz humorístico como ponto de diferenciação face às outras drag queens: “Não é toda a gente que é uma artista cómica”, afirma Big Mama. 

A artista recorda os tempos de jovem em que frequentava o Lusitano Bar para estudar à tarde. Por coincidência, foi justamente no Lusitano que começou a apresentar-se como drag queen, devido a uma participação num festival de transformismo, repetindo presença nos anos seguintes. Depois destas aparições, foi convidada por Wanda Morelly para as quartas-feiras do Lusitano.

 No momento, não é residente em nenhuma “casa”, apresenta-se como “freelancer”. 

Big Mama não quer ser uma artista somente da noite. “Há certos espetáculos que não dão para fazer em casas gay, considera. O grande objetivo da carreira? Ser lembrada pela sua originalidade. 

Lilly Prozac: “Um antidepressivo ambulante”

Lilly Prozac é uma das mais emblemáticas drag queens portuenses. O seu criador é André Americano, de 29 anos, “nascido e criado” no Porto. A personagem nasceu há, sensivelmente, seis anos e aquilo que a distingue é a indumentária que usa em cada atuação. 

É autora das próprias roupas, que nunca se repetem de espetáculo para espetáculo. O número de figurinos que tem, ao todo, aproxima-se dos 500, cada um pensado para a ocasião e concebido no estúdio que criou, o AMA Studio, onde outros artistas podem também fazer as suas compras e encomendas. A maquilhagem, os acessórios, brilhos, peitos artificiais e outros ornamentos, constroem a personagem feminina que apresenta ao trabalho como drag queen.

Lilly Prozac assume-se como a primeira drag queen gogo dancer – o termo designa, tradicionalmente, um dançarino contratado para dançar em espaços noturnos -, no Porto. Foi no Zoom Porto que se estreou e começou a dar as primeiras cartas no mundo do transformismo, no qual fomentou também o movimento das drag barbudas e com glitter. O movimento estendeu-se também ao público, que abraçou a corrente. “Tenho a certeza que foi por causa de mim e de outras colegas que se apresentavam assim em palco”, afirma.

Uma personagem que efervesce boa disposição, quer ser o “antidepressivo ambulante” nos projetos em que se envolve. No fundo está a fazer jus ao nome: Eli Lilly and Company é a marca que produz os antidepressivos Prozac. Uma brincadeira que reflete o objetivo artístico da drag queen.

No Zoom Porto, onde é residente, afirma haver uma noção de “compromisso”, onde todos se envolvem, desde drag queens, a barmans e até aos seguranças. “Nós já tivemos barmans a vestirem-nos e seguranças a despir-nos e DJ a ajudarem-nos a mudar de perucas”, explica a artista.

Destaca-se pela produção e afirma que o seu maior trunfo é o trabalho e o perfecionismo. Confessa que o dinheiro que faz na noite é nobre e sente que, dentro do meio, o seu trabalho é verdadeiramente reconhecido. No entanto, é uma exceção à regra, pois no transformismo muitas vezes é difícil cobrir os gastos de produção com o valor angariado em cada espetáculo

A relação entre membros da comunidade é “amor e ódio, uma chaleira que ferve”. Não obstante, realça o sentimento de irmandade que acaba por prevalecer. A rivalidade “saudável” é necessária, na sua opinião.

Kelly Ke: “Gosto de ser impactante”

Kelly Ke é mais jovem do grupo. Surgiu há pouco mais de um ano, pouco antes do início da pandemia da Covid-19. O criador é Bruno Sampaio, de Lousada, que tem 19 anos. A drag queen deu os primieros passos no transformismo em tempos difíceis para quem anseia fazer do espetáculo vida

A sua primeira experiência foi no Zoom Porto, depois de ter participado no Drag Got Talent, concurso em que conquistou o terceiro lugar. Destacou-se pelos fatos “impactantes”. Após o primeiro show, percebeu que o transformismo era parte de si e o espetáculo noturno o seu lugar. Kelly Ke assume-se como “extrovertida, menos evergonhada e com um lado mais feminino” que Bruno Sampaio não tem o à vontade para exprimir.

Como inspiração, destaca Lilly Prozac. O seu criador, André Americano, ajudou Kelly desde a confeção das roupas até aos ensinamentos de maquilhagem.

Sem contrato com nenhum estabelecimento, atua consoante convites pontuais, apesar de ter aparições habituais no Zoom Porto. Quando “começou a aparecer” no mundo drag, a pandemia encurralou-a: “Eu a começar e isto tudo a fechar as portas”, conta. 

Como drag queen, acredita que “crescemos e somos melhores a ouvir os outros”. Num meio onde persiste um contraste entre rivalidade e irmandade, destaca o sentido de entreajuda que acaba por prevalecer. Realça ainda que gosta de ouvir “todas as críticas construtivas” das suas colegas de profissão, para se tornar cada vez melhor.

Em retrospetiva, Kelly Ke afirma não querer ser melhor que ninguém, nem ocupar o lugar de outros, mas sim “sentir-se concretizada com tudo” o que faz

Onde as drags estão em casa

Quando se fala em drag queens no Porto, duas casas sobressaem no roteiro: Lusitano Bar e Zoom Porto, embora haja outras casas a dar espaço ao transformismo, como o Pride e o Invictus.

No Lusitano, que nasceu com o objetivo de ser um local “LGBT friendly” – como afirma Mário Carvalho, dono do espaço – há 16 anos que o bar dá palco às drag queens na Invicta. Mas também a outras formas de arte, num local “onde todos podem entrar, desde que respeitem cada um”.

Foto: Francisca Gomes

As musas do show noturno fazem do Lusitano um “ponto de atração” para os amantes do espetáculo.É a personagem que encarnam, é representação, é uma grande componente musical”, tudo contribui na visão do proprietário do estabelecimento.

Atrativo tornou-se também o Porto Drag Festival que o Lusitano criou há seis anos, com o objetivo de “mostrar o melhor da arte drag“. O evento com apresentação e direção artística de Natasha Semmynova marcado para as sextas-feiras de janeiro a junho, é desde então aberto à participação de transformistas lusos, mas também estrangeiros.

“O festival é porta de entrada” para um mundo onde mora a excentricidade, comenta Mário Carvalho.

Quanto “à reação do público” aos espetáculos de transformismo, o empresário considera que “tem sido sempre boa”. “Há muita gente que gosta de ver este tipo de espetáculos“, afirma ao JPN.

Com a pandemia de covid-19, o Lusitano Bar viu-se obrigado a fechar portas. Na sua futura reabertura, anuncia Mário Carvalho, será diferente. Abrirá como restaurante/bar. No entanto, é ponto assente que “mesmo com o restaurante, os espetáculos irão permanecer”.

“Elas são a cara da casa”

Sara Correia é proprietária do Zoom Porto desde 2015. Pegou na casa numa altura difícil para o estabelecimento. Conta que comprou o espaço com o intuito de criar algo novo: “Peguei na casa com intenção de fazer uma casa diferente, de glamour, mantendo o conceito. Nunca me tinha passado pela cabeça as drags, mas as coisas foram-se desenvolvendo naturalmente”, conta em entrevista ao JPN.

André Americano (Lilly Prozac) já marcava presença no espaço e trouxe as emblemáticas noites “bunnyland”:  “O André já cá estava e fizemos duas ‘bunnyland’. Gostei imenso do conceito. Começamos a fazer isso à sexta-feira. Era uma noite diferente, com música diferente.”

Foto: Mariana Vilas Boas

Lilly Prozac, Camel Toe, Kim Fox e Jessica Top foram as primeiras residentes do Zoom. Muitas outras passaram pelo espaço. Chegaram a ter dez na mesma noite, confessa-nos a proprietária do Zoom.

“Aquilo que elas fazem no palco é indescritível, é diferente de tudo”, afirma Sara Correia para descrever porque considera as drags parte da essência do Zoom: “Elas dão vida à casa. Independentemente de as pessoas gostarem ou não”, acredita a proprietária.

Tal como o Lusitano, também o Zoom tem um concurso de talentos para os amantes do transformismo. O “Drag Got Talent” dá espaço a qualquer pessoa para viver a experiência de ser uma drag queen: “Havia muita gente que gostava de estar em cima do palco, que queria ser drag, que queria experimentar fazer o show. Sendo por uma noite ou sendo para sempre, era indiferente. Era pela experiência em si.”

No concurso criado pela casa, qualquer pessoa se pode inscrever. A cada concorrente é atribuída uma drag queen que se torna sua mentora. Auxilia todo o processo de construção artística: desde a maquilhagem às roupas. A vencedora é escolhida pelo público e tem a oportunidade de ficar a trabalhar no espaço. O principal objetivo do concurso? Dar uma oportunidade quem quer ingressar neste mundo artístico.

“Elas são a cara da casa. Elas são as artistas da casa”, diz-nos Sara Correia. “Nós todos trabalhamos para o show delas porque é o ponto alto da noite. É aquilo que as pessoas mais gostam: é a música e o espetáculo delas”, acrescenta. Ainda assim, até aqui chegar, muita pedra teve de ser partida: “Foi complicado. Nós achamos que é tudo muito bonito, mas para chegar aqui, nestes poucos anos, evoluímos muito. Foi difícil e eu estive sempre com elas.”

A inclusão da arte foi um processo vivido por aqueles que trouxeram essa novidade para Portugal e para a cidade do Porto. Hoje, tudo é diferente, mas ainda há coisas a fazer: “Ainda se vê a discriminação, ainda se vê as pessoas a olharem de lado, ainda se vê as pessoas a olharem e rirem-se. Não percebem que isto é uma arte. Que é algo muito trabalhoso. São horas de maquilhagem, são horas de costura, são custos elevadíssimos”, conclui.

Fotografia: Ana Gândara | Ilustração: Adriano Antony

Trabalho editado por Filipa Silva e João Malheiro

Esta reportagem multimédia integra a série “Comunidades” estreada em 2020 pelo JPN. A série de 2021 teve o seu pontapé de saída a 1 de março no âmbito da atividade Editor por um Dia, este ano a cargo da jornalista Catarina Santos.

Agradecimentos ao Lusitano BarZoom Porto e AMA Studio pela cedência dos espaços para a realização da reportagem

Artigo corrigido às 20h25 do dia 24 de maio de 2021. O Porto Drag Festival, de forma diferente da originalmente apontada, não é um concurso de talentos, mas um evento de demonstração da arte drag.