Altamiro da Costa Pereira é um dos quatro candidatos a reitor da Universidade do Porto. Em entrevista ao JPN, o diretor da Faculdade de Medicina falou da sua motivação para a candidatura e aquela que é a sua visão para a UP. Pretende contribuir para uma universidade mais coesa, com "uma cultura própria" e sem "preconceitos ideológicos". Candidatos são ouvidos na sexta-feira.

Conta com um amplo currículo, quer na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), quer na UP como um todo. Depois de uma candidatura falhada há 20 anos, Altamiro da Costa Pereira volta a avançar com uma candidatura ao cargo de Reitor, desta feita para “dar uma noção mais universitária da universidade”.

Com 63 anos, foi no Porto que nasceu, cresceu e que se formou em Medicina. Doutorado na área da Epidemiologia pelo Hospital e Escola Médica de Ninewells, da Universidade de Dundee, no Reino Unido, iniciou carreira na FMUP, onde agora é, além de professor catedrático, o diretor. Tem ainda funções na gestão pedagógica, científica e administrativa na Faculdade de Medicina, na Universidade do Porto e noutras instituições nacionais e internacionais.

Com o cargo de Reitor na mira, acredita ser “de longe o mais reformador dos candidatos”. Vê na sua experiência na direção da FMUP uma prova de como pode melhorar a organização da Reitoria e da UP. Lamenta que “nunca [tenha sido] feito um verdadeiro esforço para que houvesse uma cultura própria da Universidade do Porto, como um todo”.

 Calendário

Sexta-feira, dia 29, tem lugar a Audição Pública dos candidatos. Segue-se a eleição do reitor pelo Conselho Geral da Universidade do Porto a 6 de maio.

É numa maior coesão que aposta para um mandato como Reitor. Para além dessa questão, centra a campanha no investimento na inovação, na comunicação, na interdisciplinaridade, na internacionalização e na inclusão, entre outros. Tem, com esses objetivos, a convicção de ser capaz de “dar um boost ao natural crescimento da universidade”.

Propõe medidas “sem preconceitos” para resolver problemas verificados no alojamento estudantil e nas condições económicas dos estudantes, por exemplo. Na sua opinião, os privados devem ter um papel importante a desempenhar. “Se calhar, fica mais barato para a universidade dar umas poucas centenas de euros aos seus estudantes mais necessitados para poderem procurar alojamento”, admite.

Com um espírito que assume como reformista, crê que “com pequenas diferenças e mudanças na liderança, são conseguidos grandes ganhos”. No final, se voltar a não ganhar na corrida a Reitor, reforça que não tem “ambições a não ser servir a Universidade do Porto”.

Esta é a terceira de uma série de entrevistas que o JPN publica com os candidatos ao cargo de reitor. Sexta-feira, dia 29, tem lugar a Audição Pública dos candidatos, seguindo-se a eleição pelo Conselho Geral da UP a 6 de maio.

JPN – O que é que o fez candidatar-se a Reitor da Universidade do Porto?

Altamiro da Costa Pereira (ACP) – Em primeiro lugar, não é a primeira vez que me candidato. É a segunda. A primeira foi há 20 anos, em 2002.

JPN – O que é que o levou, então, a voltar a candidatar-se ao cargo?

ACP – Naquela altura, fazia sentido candidatar-me. Era uma altura em que ia refazer-se, de alguma maneira, a Universidade, com novos edifícios e era importante estar presente na Reitoria nessa altura de reformulação para tentar arrumá-la, do ponto de vista arquitetónico, de campus, etc. Isso não foi possível, fiquei em segundo lugar. Na altura, o professor Novais Barbosa renovou o seu mandato e a partir daí foram feitos edifícios em locais onde não deviam ter sido feitos, porque a universidade ficou demasiadamente dividida e fragmentada. Por exemplo, na área das Ciências da Saúde: ficou uma parte no campus da Asprela e uma parte no campus do Campo Alegre; outro exemplo, na área das Tecnologias e informáticas ficou uma parte na Asprela e outra parte no Campo Alegre. A universidade dividiu-se e quase que podiam passar a existir duas universidades. Ela não foi arrumada, foi desarrumada.

Vinte anos depois, já não é para arrumar a universidade que me candidato. É para, com aquilo que hoje existe, tentar dar uma noção – perdoe-me o pleonasmo – mais universitária da universidade. Um dos problemas principais da Universidade do Porto não é só essa desarrumação ou essa fragmentação, é o facto de a universidade hoje ser mais um conglomerado de escolas e institutos, mais uma federação um pouco mal organizada dessas entidades, do que uma verdadeira universidade, com uma boa articulação entre diferentes componentes.

A Universidade hoje [é] mais um conglomerado de escolas e institutos, mais uma federação um pouco mal organizada dessas entidades do que uma verdadeira universidade, com uma boa articulação entre diferentes componentes.

JPN – Sente que não há uma boa ligação entre as diferentes instituições?

ACP – Não tanto quanto poderia e deveria haver. A UP quando nasce já existiam escolas que já tinham as suas tradições e culturas. A Medicina, as Ciências, as Belas Artes, etc.. Essas diferentes culturas, que já existiam há uma centena de anos, tenderam a manter-se. As faculdades que nasceram depois, muitas delas, nasceram já como “filhas” das já existentes – casos de Dentária, do ICBAS, de Nutrição, etc.. Rapidamente, porque essa era a tradição, elas independentizaram-se e formaram uma cultura própria, e hoje, a cultura da Universidade é a cultura específica das diferentes escolas. Nunca foi feito um verdadeiro esforço para que houvesse uma cultura própria da Universidade do Porto como um todo, em que as faculdades partilhassem processos, ensinos e investigações.

JPN – Considera que a atual equipa reitoral falhou nesse aspeto?

ACP – Não, isto não tem a ver com a atual equipa reitoral. É algo que vem desde o nascimento da própria universidade. Eu não tenho nada a dizer contra a atual equipa reitoral, nem contra o próprio reitor. Acho que todas as pessoas tentaram fazer um bom trabalho e estão imbuídas de boa-fé. Mas acho que é possível fazer mais. Os reitores que precederam este e as equipas reitorias estiveram preocupados, e bem, em resolver problemas específicos de faculdades específicas. Tiveram algumas ações que foram consentâneas, no sentido de tentar criar esse framework comum. Por exemplo, com os SPUP (Serviços Partilhados da Universidade do Porto), ou a UP Digital, ou ainda a Casa Comum, mais recentemente.

JPN – Sente que foi insuficiente?

ACP – Claramente. A UP Digital não consegue, ainda hoje, agregar todas as faculdades. É curioso, porque quem está à frente da UP Digital são pessoas da Faculdade de Ciências, mas a Faculdade de Ciências não está integrada na UP Digital. Outra coisa de que posso falar é dos SPUP, que já existem há uma série de anos e, por exemplo, Engenharia não está integrada nos SPUP. Por exemplo, a questão da avaliação docente. Ela faz-se em cada uma das faculdades, mas não há uma avaliação docente comum para a UP. A forma como avaliamos os nossos docentes [na FMUP] é muito diferente da forma como são avaliados no ICBAS. No entanto, muitos deles fazem exatamente a mesma coisa. Os critérios são diferentes. O próprio Sigarra tem versões diferentes nas diferentes faculdades. Há um trade-off entre aquilo que deve ser a autonomia pedagógica e científica das faculdades e as questões comuns que devem ser tratadas em conjunto.

A Reitoria tornou-se ela própria com um espírito quase de uma faculdade, quando ela deve ter um espírito exclusivamente de servir as faculdades.

Mas hoje, cada vez mais, a sociedade é global, os desafios são globais, as articulações, as multidisciplinaridades estão na ordem do dia, tanto entre faculdades como dentro das faculdades. Pelo que a existência das “quintas”, dos “quintais”, dos “muros” é cada vez mais um problema para o qual se tem de encontrar soluções mais ou menos consensuais e isso é muito da responsabilidade e, sobretudo, da influência e da iniciativa do Reitor.

E a Reitoria, nos últimos tempos – mais uma vez, não tenho nada especificamente contra esta equipa reitoral, nem contra o Reitor -, mas a Reitoria tornou-se ela própria com um espírito quase de uma faculdade, quando ela deve ter um espírito exclusivamente de servir as faculdades. Ela deve ser o principal motor da construção da universidade, tem que ser uma placa giratória que promova as diferentes articulações, e não ela própria a competir por protagonismo.

JPN – Sente que a Reitoria está um pouco fechada ao resto do mundo académico?

ACP – Já esteve mais. Mas a influência da Reitoria, por exemplo, na Faculdade de Medicina é muito pequena. E isso é, seguramente, responsabilidade da Faculdade de Medicina, mas também é responsabilidade da Reitoria. A ligação da Reitoria às faculdades é maior nas faculdades mais pequenas, ou nas faculdades em que o Reitor é dessa faculdade. Portanto, eu espero que isso não aconteça se for eleito Reitor.

JPN – Já foi estudante da Universidade do Porto há muitos anos. Como é que evoluiu a sua ligação e a sua conexão com a universidade neste tempo?

ACP – Lá está. Eu quando fui estudante da Universidade do Porto nem tinha consciência que era estudante da Universidade do Porto. Eu fui estudante da Faculdade de Medicina, que na altura nem era Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, era Faculdade de Medicina do Porto. Só mais tarde, com o modelo fundacional, é que passou a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Lá está, porque a Faculdade de Medicina do Porto foi constituída ainda antes – uns meses antes – da criação da Universidade do Porto.

JPN – Mas existirá uma maior conexão com a Universidade hoje?

ACP – Eu penso que sim. Eu próprio depois senti essa conexão por muitas e variadas razões. Estive no Conselho Geral (CG), e quando fui eleito para o Conselho Geral fui dos membros com mais votos fora da sua própria faculdade. Repare: basta ver as eleições para o Conselho Geral para ver que tipicamente os membros do CG só têm votos dos colegas da sua própria faculdade, quando deviam representar a Universidade. É muito raro um membro do CG ter um voto de outra faculdade que não a sua. Existem exceções. Eu fui uma e há outros. Mas a maioria só tem votos da sua faculdade. Mais ainda: uma faculdade muito grande, como Engenharia, existem pessoas que só têm votos do seu departamento. Acho que é triste e é uma das provas do que lhe estava a dizer.

JPN – Que realizações no seu tempo como diretor da FMUP é que retira para um possível mandato como reitor?

ACP – Em primeiro lugar, nunca se pode replicar nada, senão cheira a requentado. As receitas têm princípios, mas depois têm de ser aplicadas tendo em conta as situações concretas. Mas posso dar alguns exemplos do que fiz na FMUP e que acho que correram muito bem. Em primeiro lugar, a importância dos técnicos no estruturar de uma instituição. Quando cheguei à Faculdade de Medicina encontrei cerca de cem técnicos que estavam “pendurados” diretamente aqui na direção e que ninguém sabia quem eram. Estavam “perdidos” ou “esquecidos”. Tentei pegar nessa força de talentos e tentei organizá-los.

As receitas têm princípios, mas depois têm de ser aplicadas tendo em conta as situações concretas.

Também criei seis unidades de gestão autónomas para seis áreas importantes na faculdade, desde a área de gestão central, gestão académica, gestão de conhecimento, de infraestruturas, comunicação, etc., subdividi essas áreas, e nomeei coordenadores e hoje as pessoas sabem onde estão e o que fazem.

Uma outra vertente com que me preocupei desde o início foi acabar com aquilo que se poderia designar por trabalho escravo, mas que era designado como “docentes voluntários”. Quando cheguei havia, numa base de dados que aqui encontrei, cerca de 900 docentes voluntários. Isso era uma pecha que já existia na faculdade há cerca de 30 anos e nunca ninguém tinha verdadeiramente encarado isso de frente e procurado resolver. Eu gosto de encarar de frente e de tentar resolver. O que fiz foi transformar aqueles docentes voluntários, que de facto davam aulas, em contratos de docentes convidados. Posso dizer que fiz em três anos mais de 500 novos contratos. É claro que isso aumentou a massa salarial, mas ao mesmo tempo, não só dignificou o trabalho das pessoas, como as tornou elementos participativos, com responsabilidades e com voz. Esse aumento da massa salarial, consegui compensá-lo através de uma melhor gestão dos recursos, de poupanças em aquisições, e também em aumento de receitas próprias. Apesar de ter aumentado as despesas com pessoal em quase dois milhões [de euros], consegui acabar no ano passado com quase um milhão de superavit na faculdade. Na Reitoria não há docentes voluntários. Na Reitoria não há aulas, mas não tenho dúvidas de que a Reitoria pode ser muito melhor organizada.

JPN – Considera que na Universidade do Porto há muita precariedade que tem de ser resolvida?

ACP – Claro que há precariedade, não há dúvidas, mas muita da precariedade existe e vai sempre existir. E é muito bom que exista, não pode nunca ser de outra maneira. A precariedade tem uma conotação negativa; é uma perspetiva, mas depois há outras perspetivas. Na minha visão, a única forma que a universidade tem de se articular melhor com a sociedade onde está, com o desenvolvimento tecnológico das empresas, de forma a ser mais viva e ter mais conhecimento incorporado é a contratar pessoas do mundo tecnológico e do mundo empresarial, profissionais que estão na sociedade. Essas pessoas têm já os seus empregos e ocupações, portanto não querem ser docentes a tempo inteiro, nem a universidade precisa deles a tempo inteiro. Têm por isso de ser contratadas a tempo parcial.

Diz-me “isso é precário”. Não acho que seja precário. Não são contratos a tempo inteiro, nem para sempre, mas são extremamente importantes. Da mesma maneira que um bolseiro pode vir a fazer um trabalho de investigação e ser ótimo, mas não quer dizer que vá ser investigador a tempo inteiro. E não tem necessariamente de ser contratado como investigador. A universidade não pode ficar com toda a gente. A universidade tem de contratar os melhores, ter um naipe de pessoas que sejam a estrutura da universidade, e depois ir buscar pessoas consoante o que precisa, de forma precária – mas não num sentido negativo – para elas darem o seu contributo e depois irem às suas vidas.

Altamiro da Costa Pereira licenciou-se em Medicina na instituição em que hoje é diretor. Foto: Gonçalo Sampaio

JPN – O que define como prioridades se for eleito como reitor? Serão semelhantes às prioridades da Faculdade de Medicina ou diferentes?

ACP – Há algumas que são semelhantes, obviamente. Pôr ordem na casa, melhorar a eficiência e a gestão. Isso tanto pode ser feito ao nível de um departamento académico, como pode e deve ser feito ao nível de uma faculdade ou ao nível de uma universidade, neste caso, ao nível da Reitoria. São realidades distintas, mas questões de eficácia, eficiência e comunicação são específicas, mas também comuns. Há outras que são realmente específicas. Por exemplo, esta necessidade de se fazer uma maior articulação entre as escolas, entre os diretores, os conselhos científicos, os professores e estudantes – refiro-me às unidades orgânicas, laboratórios associados. Isso é uma missão muito específica da Reitoria.

JPN – No seu programa de ação define como objetivo uma universidade com mais cinco “i”. 

ACP – Coloquei cinco, mas podia pôr nove ou dez. A questão é meramente simbólica. Pediram-me para escrever algo para o “Jornal de Notícias” e referi que gostaria de tornar a UP numa instituição com mais “i”. A ideia é essa: mais inspiradora, internacional, integrada, interdisciplinar, inovadora, íntegra e inclusiva, mais investigação e mais iniciativa. A questão é tentar realmente através destas palavras, e, sobretudo, pondo os pontos nos i, ter formas simples de as pessoas se lembrarem quais devem ser os objetivos de uma universidade, como a inovação.

JPN – Falta muita inovação na universidade?

ACP – Há lugar para muito mais. A questão da inovação está ligada, muitas vezes, ao desenvolvimento de produtos, à indústria. Por exemplo, o Instituto Politécnico do Porto tem mais experiência nessa questão da inovação do que a Universidade do Porto. Há sempre lugar para se fazer mais. E depois, por exemplo, uma universidade mais inspiradora é muito importante, porque muitas vezes os professores e os estudantes sentem-se pouco inspirados.

JPN – Há pouca motivação?

ACP – Às vezes. Numa instituição tão grande como a UP existem nichos que numa determinada altura estão extremamente inspirados e outros que estão profundamente desiludidos. Tal como num país existem zonas que são muito avançadas e zonas que entraram em marasmo. Não se pode dizer que a UP como um todo seja assim. Agora, o que se pode dizer certamente é que a UP tem realidades muito diferentes, ao nível de cada faculdade e dentro dos departamentos nas próprias faculdades.

JPN – O que é que de mais importante pode ser feito para resolver essas disparidades?

ACP – A receita é sempre a mesma. Quando temos “muros”, não flui e vai-se acumulando mais de um lado e pode estar diferente no outro. Se pusermos as coisas em comunicação, se os menos desenvolvidos estiverem em contacto com as melhores práticas, acabam uns por fecundar os outros.

Se pusermos as coisas em comunicação, se os menos desenvolvidos estiverem em contacto com as melhores práticas, acabam uns por fecundar os outros.

JPN – A comunicação é importante?

ACP – A comunicação é absolutamente crucial. O fomentar a comunicação, a transparência, a avaliação com escalas semelhantes, pôr em confronto, monitorizar, influenciar e tornar as coisas mais abertas vai acabar por induzir mudanças e transformações.

JPN – Recentemente tem-se falado muito nas questões de assédio e abuso sexual. Na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), houve já mais de 70 denúncias contra professores; no Porto foram reportadas quatro queixas até agora. O que é que faria como reitor para resolver estas situações e facilitar a sua denúncia?

ACP – É um problema que, de certeza, existe em todas as universidades, porque existe em toda a sociedade. O reitor, como qualquer responsável, deve estar consciente de tudo isto e não deve ser um fator nem de encobrimento, nem de branqueamento. Deve ser um fator tranquilo, mas sério a tentar que estas questões sejam minoradas, no sentido de serem prevenidas atempadamente. Aparecem notícias de abusos reiterados durante anos ou décadas. Certamente, se tivesse conhecimento de qualquer abuso em algum departamento, tentaria resolver isso imediatamente. Há muitas maneiras de o fazer.

Também existe aproveitamento, denúncias de casos que não são verdadeiros casos. Temos que ter um posicionamento de grande abertura, mas com muito poucos preconceitos. Estar abertos para identificar situações de verdadeiro abuso, seja moral, sexual ou outro, e situações falsas de abuso. Temos de ter uma enorme sensatez e cuidado, porque o mundo está carregadinho de fake news. Agora, não há dúvidas de que haverá abusos na Universidade do Porto e o Reitor deve estar preocupado com isso e deve favorecer essa consciencialização nos diretores das diferentes unidades orgânicas e departamentos.

JPN – Nos últimos anos houve maior investimento em alojamento estudantil, sendo que estão planeadas 800 novas camas para o futuro próximo. Apesar disso, citando o atual reitor, este é ainda “um dos maiores problemas socioeconómicos dos estudantes do Ensino Superior”. Se eleito reitor, como planeia expandir o alojamento acessível?

ACP – A questão do alojamento, como muitas outras, é uma questão que não é linear. O que é preciso é que estudantes que não tenham posses e precisem de um alojamento mais económico [o possam ter]. Mas é preciso ter em consideração a oferta e a gestão desses alojamentos por privados. Em boa verdade, muitas vezes, a gestão pública de residências universitárias é menos eficiente do que a gestão privada. Hoje, não sabendo números, se calhar consegue-se alojamentos de melhor qualidade praticamente pelos mesmos preços que são feitos no público. Mesmo assim, não existe uma oferta como deveria existir. Para mim, é mais importante pôr os serviços sociais dos estudantes a funcionar a sério e dar bolsas aos estudantes do que necessariamente criar residências. Não estou contra criar, mas talvez os privados e a Câmara Municipal podem gerir essas residências de uma forma mais eficiente do que a universidade. Cada estudante deve ser subsidiado para ele próprio encontrar o melhor local. A universidade deve-se preocupar, sobretudo, em ter melhores condições de ensino. A universidade não deve descurar a questão do alojamento, mas há outras formas de lhe chegar. Se calhar fica mais barato para a universidade dar umas poucas centenas de euros aos seus estudantes mais necessitados para poderem procurar alojamento do que ela própria fazer ou restaurar as residências, que muitas vezes são mal desenhadas, mal equipadas e mal geridas.

Para mim, é mais importante pôr os serviços sociais dos estudantes a funcionar a sério e dar bolsas aos estudantes do que necessariamente criar residências.

JPN – Considera que não se tem olhado suficientemente para essa alternativa que refere?

ACP – Claro. Há muitas soluções que por muitas razões – às vezes, por preconceito ideológico e político e de burocracia – não se utilizam. Se calhar é algo muito pouco popular, aquilo que estou a dizer. Alguns estudantes gostam de estar rodeados de outros estudantes, outros gostam de estar mais sossegados. O estudante devia ter a capacidade de escolher um pouco o modelo [que prefere] e a universidade devia garantir até um determinado nível a todos os seus estudantes. Mas não necessariamente através de residências feitas pela própria universidade. Era bom haver estudos económicos e de satisfação para ver quais são as melhores soluções.

JPN – Precisamente no que toca a condições económicas, recentemente centenas de estudantes saíram às ruas no Dia Nacional do Estudante para protestar por melhores condições. O que pode um reitor fazer para aliviar economicamente quem mais precisa?

ACP – Obviamente que não é uma pergunta fácil. Tem muito a ver com a questão da identificação desse tipo de estudantes, que muitas vezes não são identificados por variados motivos. Sabemos que existem, certamente, exceções, pessoas que devem milhões e tinham IRS baixíssimos. Às vezes, pode não ser fácil identificar esses estudantes e perceber quem é verdadeiramente carenciado e necessita de apoio social. Para mim, isso deverá ser feito através da melhoria dos serviços sociais da universidade. O Reitor deve estar preocupado, claramente, em perceber as necessidades e falhas do sistema. E, depois, com os próprios estudantes, encontrar soluções eficientes e justas.

JPN – Como é que imagina a Universidade do Porto em quatro anos?

ACP – Espero que esteja melhor. Aliás, todas as instituições, com o passar do tempo, deviam melhorar. Não espero que esteja pior, independentemente de ser eu ou outro reitor. As instituições naturalmente só com fenómenos extremamente anómalos é que pioram com o tempo.

JPN – Mas tem alguma expectativa?

ACP – Provavelmente a sua pergunta será se eu espero que vá ficar ainda melhor, se consigo dar um boost ao natural crescimento da universidade. Acho que sim, com toda a sinceridade, porque se não achasse isso não concorreria a reitor. Em três anos na Faculdade de Medicina, acho – e não sou eu apenas que o digo – que a faculdade deu um salto maior em três anos se calhar que nos últimos 20. E não andei a empurrar paredes, nem a puxar orelhas. Não andei a fazer nada de muito especial, a não ser fazer aquilo que está no meu programa, que foi descentralizar, delegar, pôr outras pessoas a trabalhar melhor e, ao mesmo tempo, articular diferentes iniciativas e responsabilizar as pessoas por tudo isso. E reconhecer o trabalho feito. Com pequenas diferenças e mudanças na liderança, são conseguidos grandes ganhos. Se vou ser capaz, ou não, de fazer isso ao nível da Universidade do Porto, isso faltará ver, se tiver essa oportunidade. Na Faculdade de Medicina, não há dúvidas de que consegui. Na universidade, se for como há 20 anos, que não fui eleito, ninguém saberá. Se eu tivesse ganho, que hoje a universidade seria diferente em termos arquitetónicos e urbanísticos, isso seria. Agora, pode ter a certeza de que sou, no meu entender, de longe o mais reformador dos candidatos, isso sou.

Com pequenas diferenças e mudanças na liderança, são conseguidos grandes ganhos.

JPN – Se não for eleito, o que se segue?

ACP – Não tem problema. Se não for eleito, continuarei as minhas funções na Faculdade de Medicina.

JPN – Tem planos para outras aventuras deste tipo?

ACP – Não. Sou um universitário que, desde que entrei, estou em dedicação integral e exclusiva. Tenciono manter-me. Um dia irei reformar-me, mas até lá irei continuar a trabalhar como universitário. Não sou político, não tenho ambições a não ser servir a Universidade do Porto.

Artigo editado por Filipa Silva