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“Centenas de crianças não deveriam ser mantidas em locais de detenção ao lado de adultos”. Mas são
“Nenhum ser humano deveria viver nessas condições”. Crescer no meio de “um grande deserto cheio tendas”
As crianças descendentes de portugueses nos campos de refugiados sírios
A “guerra” travada para conseguir fazer chegar ajuda
Chamam-lhes a “próxima geração de terroristas” que a ninguém pertence
O “pesadelo” que não acaba: o testemunho de quem cresceu num “filme de ação”

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Milhares de crianças nunca conheceram o mundo que se encontra para além da vasta extensão de areia do deserto sírio. Frágeis, vivem presas em campos onde não têm acesso a educação, cuidados médicos, comida, água potável ou segurança. De acordo com o mais recente relatório da Amnistia Internacional, vivem nos campos do noroeste da Síria 1.7 milhões de pessoas. Destas, 58% são crianças.

Entrar num destes campos pode ser perturbador. “Ir a al-Hol é uma experiência traumatizante”, descreve a porta-voz regional da Cruz Vermelha para o Próximo e Médio Oriente, Imene Trabelsi, ao JPN. Nenhum profissional ou voluntário se habitua ao quadro “desolador”, tendo em conta “a deterioração das condições de vida”.

As pessoas vivem numa situação vulnerável e, 11 anos depois, o que se nota é “uma crescente – quase completa – falta de esperança” sobre o que há de vir, assumiu o Coordenador de Emergência da Médicos Sem Fronteiras (MSF), João Godinho Martins, ao JPN. 

‘Casas’ sem paredes e um abrigo pouco seguro

Nos campos, os abrigos revelam-se insuficientes e três famílias podem ter de partilhar um “espaço de seis metros quadrados” – o equivalente a um quarto pequeno onde só caberia uma cama e uma secretária. As tendas são permeáveis às temperaturas extremas que se fazem sentir quer no inverno, quer no verão. “Por melhor que ela seja, quando estão 40ºC e sol direto, vão estar mais de 50ºC dentro da tenda. Quando estão 0ºC cá fora, estarão 0ºC lá dentro”, acrescentou João Godinho Martins.

As condições não dão tréguas e as tendas “precisam de ser reabilitadas anualmente”, dado que são “estruturas bastante simples que com o vento, chuva ou neve vão-se deteriorando”. Esteja o abrigo mais a norte ou a sul, as pessoas podem sofrer com os possíveis efeitos das “chuvas fortes, tempestades de neve, inundações”, referiu Ana Farias, coordenadora de Mobilização e Campanhas da Amnistia Internacional, em entrevista ao JPN.

O frio pode ser rigoroso e, para aquecer os abrigos, algumas famílias possuem uma espécie de salamandra. Mas a tentativa de solucionar um problema pode gerar outro. Tendo em conta que as tendas “são super inflamáveis”, o risco de incêndio é elevado, sendo que, em caso de um possível fogo, “destroem-se dezenas de ‘casas’ facilmente”, lamentou João Godinho Martins.  

Samiya, 11 anos

Entre janeiro e setembro de 2021, 13 crianças morreram no campo de al-Hol, em resultado de ferimentos provocados por incêndios.

A qualidade de vida é precária. Vulneráveis, as crianças são o grupo mais afetado. Com infeções respiratórias, no inverno, mal-nutridos e com outros problemas de saúde, os mais novos não têm acesso aos devidos cuidados – das 5.143 crianças observadas, em 2021, pela Cruz Vermelha, 15% encontravam-se desnutridas. 

Bushra, 10 anos

Os campos carecem de profissionais e de infraestruturas que prestem os serviços médicos adequados. Estas lacunas sentem-se, essencialmente, na saúde “materno-infantil, pediatria, cirurgia, saúde mental e reabilitação física”, como indicou Imene Trabelsi, do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV). “As necessidades excedem o que está disponível lá”, conclui João Godinho Martins.

Para quem necessita de cuidados com urgência, há uma possibilidade: recorrer a serviços de saúde fora do campo. No entanto, algumas famílias excluem essa hipótese, tendo em conta a demora e as exigências do processo. Por exemplo, a saída de uma criança com mais de dois anos significaria a sua separação da família, que permaneceria no campo desprovida de informação sobre o estado de saúde do menor e a unidade onde se encontrava. 

As mulheres são também desencorajadas quando têm de passar pelo posto de controlo. Além de fornecerem os seus dados, são obrigadas a tirar uma fotografia sem o véu islâmico. Ainda assim, tal possibilidade só existe se a família conseguir obter uma autorização por parte das autoridades responsáveis pelo campo. 

“As condições são duras tanto para adultos quanto para crianças”, resume Imene Trabelsi. Portanto, “nenhum ser humano deveria viver nessas condições”. 

À procura de segurança num lugar onde há pouca

Em busca de segurança, as pessoas tentam refugiar-se nos campos. Mas nem sempre o porto de abrigo que imaginaram lhes traz a segurança que precisam. No interior dos campos, registam-se episódios de violência que várias vezes resultam em mortes. 

Em al-Hol, no total, morreram 62 crianças de janeiro a agosto de 2021. A associação Save The Children revela que três delas foram assassinadas. No início de fevereiro, o Observatório Sírio para os Direitos Humanos deu também conta que aconteceu um tiroteio no campo de al-Hol. O incidente, desencadeado por uma tentativa de um conjunto de mulheres de sequestrar guardas curdos, resultou na morte de uma criança de 10 anos e em vários feridos.

Bushra, 10 anos

O episódio não é único, mas no exterior a situação não melhora. As crianças que conseguem obter uma autorização para sair do campo estão permeáveis à possibilidade de serem separadas das suas famílias, traficadas ou usadas como mão-de-obra, fenómeno que está a aumentar. Os rapazes de 12 anos podem ainda ser detidos para ‘evitar a sua radicalização’. 

Em al-Hol, os perigos aumentam à medida que o campo vai crescendo e não existem espaços seguros para os mais novos. “São muitas crianças em condições absolutamente desumanas e degradantes”, lamenta Ana Farias da Amnistia Internacional. “Por isso, estamos a falar de crianças que vivem em constante clima de medo, de raiva e num ambiente que prejudica muito também a sua saúde mental, sendo que ela própria já estava fragilizada previamente. Por isso, são condições absolutamente desumanas”, conclui.

Foto: CICV

“Estamos a falar de milhares de pessoas que estão numa situação de limbo onde as duas opções são inseguras”, concluiu Imene Trabelsi, do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV). “A verdade é que dentro e fora do campo, a segurança é praticamente inexistente”, acrescenta.

O clima de insegurança é percecionado também pelas organizações que prestam auxílio às famílias que se encontram nos campos de refugiados ou deslocados. João Godinho Martins revelou que o pessoal não nacional da Médicos Sem Fronteiras (MSF) teve de se retirar da Síria, “devido a questões de segurança” e, também, porque tinham “dificuldades em aceder à área”

Em resultado das ameaças e do risco de rapto, “nenhum membro da MSF a nível internacional pisou o território no noroeste sírio”, desde 2016 até 2020. A questão torna-se mais complexa quando nem o Governo turco, nem o Governo de Bashar al- Assad reconhecem o estatuto humanitário da organização. Além do mais, não podem “estar num sítio que pode ser bombardeado”. 

Quais são os campos de refugiados e deslocados sírios?

Al-Hol é o maior campo da área. Acolhe pessoas de 60 países, com diversas ligações ao Estado Islâmico, assim como quem tentou fugir do conflito, que assola a Síria há 11 anos. Juntamente com o campo de Roj, possui cerca de 60 mil sírios, iraquianos e cidadãos de outras nacionalidades. 

Os dados mais recentes da Save The Children revelam ainda que 50% da população total de al-Hol tem menos de 12 anos, bem como 55% das pessoas que se encontram em Roj. 

A maioria dos campos estão em áreas próximas da fronteira com a Turquia porque “supostamente são mais seguras”. 

Mapa: Afonso Melo

Embora refugiados e deslocados se encontrem em situações semelhantes, há uma diferença ténue que os separa. A Convenção de Genebra de 1951 define refugiado como “qualquer pessoa que por medo fundamentado de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade”- entre outros – se encontra fora do seu país e “não pode, ou, por medo, não está disposta, a valer-se da proteção desse país”. 

Já os deslocados são as pessoas que “foram forçadas ou obrigadas a fugir ou a deixar as suas casas” através “de uma fronteira internacional ou dentro de um Estado em particular” para evitar “os efeitos de conflito armados, situações de violência generalizada, violações de direitos humanos ou desastres naturais ou causados ​​pelo homem”, de acordo com o Glossário da Migração. 

Crianças perdidas num “grande deserto de tendas”

Os acampamentos podem também receber crianças que, entretanto, se encontram separadas das suas famílias ou sejam órfãs. Longe dos parentes, as crianças estrangeiras são encaminhadas para o campo de al-Hol, por exemplo. “A separação familiar é uma questão contínua e persistente no campo em geral”, completa Imene Trabelsi.

Foto: Unicef/Giovanni Diffidenti

Sem acesso a educação, alimentação e cuidados médicos adequados, os mais pequenos vivem num contexto completamente diferente do de qualquer outra criança que não esteja inserida num quadro de guerra ou pobreza extrema. “Tudo o que estas pessoas conhecem na vida é o grande deserto cheio de tendas, tendas inadequadas, rodeadas por cercas e isso é tudo o que sabem sobre a vida. Foram estigmatizados, têm muito pouco acesso a qualquer coisa básica na vida, então só podem imaginar…”, conta a porta-voz da Cruz Vermelha. 

Os mais pequenos não conhecem outra realidade, “nascem e crescem e não conhecem nada além dessas condições”. Estas circunstâncias podem assim representar um grande “impacto psicológico”. “As necessidades de saúde mental são enormes, especialmente entre as crianças”, revelou. 

“Vítimas. Não importa o que eles ou os pais fizeram ou de que são acusados”, sentencia Imene Trabelsi. 

Artigo editado por Tiago Serra Cunha e Filipa Silva