A tarde era de chuva e o frio parecia obrigar as pessoas a ficar em casa. Mas às três horas da tarde a multidão de volta das portas da biblioteca municipal de Santa Maria da Feira trocou as voltas ao tempo.

A razão: ver e ouvir Paul Rusesabagina entre outros nomes convidados esperados no simpósio “7 Sóis 7 Luas”, organizado pela câmara local e pelo Festival Sete Sóis Sete Luas. O tema desta sexta edição foi “Identidades: diversidade global”. Para o ano uma presença já está confirmada, a do filósofo francês Bernard Lévy, que também participou nesta edição.

Paul Rusesabagina salvou 1.268 pessoas no genocídio do Ruanda, em 1994 – a sua história ficou imortalizada no filme “Hotel Ruanda”. Emocionado e forte nas palavras, fez gelar o auditório da biblioteca lotado pelo calor da multidão.

“Vítimas e assassinos”

Galardoado em todo o mundo pelo gesto de generosidade com o povo ruandês, Paul afirma: “O meu objectivo é nunca desistir. Se quero fazer, faço e vou até ao fim. Se eu tentar hoje e não for bem conseguido, tentarei novamente amanhã”.

Caveiras na Escola Técnica de Murambi, RuandaCaveiras na Escola Técnica de Murambi, Ruanda
Foto: Domínio público
Definitivamente, voltar ao Ruanda é uma possibilidade”, diz Rusesabagina. “É o que tenho tentado fazer através da verdade e reconciliação. Porque eu nunca tomei partido e disse sempre e verdade. Nós sabemos que os tutsis mataram hutus, também os hutus mataram tutsis. Então, todos são vítimas e assassinos ao mesmo tempo”.

A morar na Bélgica, Paul não desiste das causas nobres e tem a seu cargo a associação Hotel Ruanda, que acolhe, aconselha e ajuda os órfãos e viúvos do genocídio, que matou perto de um milhão de ruandeses.

Cimeira deve favorecer o diálogo

Para acabar com estes actos, que denomina de “terroristas”, Paul apela às “superpotências, Estados Unidos da América e União Europeia” para promoverem o diálogo entre as facções e chegar a acordos de paz. Refere ainda que ao enviar dinheiro para os regimes ditatoriais, “estes governos [EUA E UE] não ajudam as pessoas, mas os seus líderes”.

Paul Rusesabagina espera que a cimeira Europa-África, do próximo fim-de-semana, “favoreça o diálogo com as ditaduras e acabe com o envio de dinheiro para esses estados. Eles [países europeus] não enviam dinheiro para ajudar as pessoas, mas para ajudar os líderes. Imagine a capital de um regime ditatorial: são lindíssimas. Mas, se ultrapassar os limites da cidade uns quilómetros apenas, verá a miséria, a desgraça. Verá pessoas a morrer à fome e de doença“.

“Os americanos dão conselhos e a União Europeia dá dinheiro e não conselhos. Para manter ouvidos tapados e olhos fechados eles dão dinheiro”, sublinhou.