Em 2013, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) anunciou a criação de uma nova prova futebolística, que substituiria as antigas II Divisão B e III Divisão (respetivamente, os terceiro e quarto escalões do futebol português). Esta nova competição, que inicialmente foi denominada Campeonato Nacional de Seniores, passaria a ser o terceiro escalão do futebol nacional, situando-se entre a Segunda Liga e os campeonatos distritais. Na época 2015/2016, a prova foi rebatizada e chama-se, desde então, Campeonato de Portugal.

Ao longo dos sete anos de existência, foram já vários os formatos adotados quer na seriação das equipas quer nos modelos de ascenção e descida. Variada é também a realidade finceira e geográfica das dezenas de equipas envolvidas todos os anos. Para esta época, estava prevista a participação de 96 equipas. Tendo as desistências já registadas – Armacenenses, Aves SAD e Fátima SAD -, são 93 as formações em ação, fazendo desta a maior competição futebolística do país.

Num ano marcado por uma pandemia que proporciona dificuldades acrescidas, o JPN faz um ponto de situação desta competição, cuja popularidade tem crescido ao longo dos anos, com a ajuda de Romão Afonso, criador da página “Campeonato de Portugal – Campeonato das Oportunidades”.

“Está a ser jogado. É o fundamental”

A realização de um campeonato semiprofissional em plena pandemia afigurou-se como um grande desafio para todos os envolvidos no processo. Na opinião de Romão Afonso, os intervenientes estão a responder bem às exigências de um campeonato que se tem revelado mais difícil que o esperado: “está a haver muita calma em todos os processos, muita compreensão de toda a gente”, disse numa entrevista ao JPN realizada ainda em novembro.

Romão Afonso valoriza o facto de a prova estar a decorrer: “acho que o mais importante disto tudo é que realmente jogamos, porque acho que havia mil e uma razões para o campeonato não estar a ser jogado e está a ser, e acho que isso é o fundamental”.

Na opinião de Romão, o desempenho das equipas deste campeonato na Taça de Portugal, competição em que dez equipas conseguiram o apuramento para a quarta ronda [Fafe, Torreense e Estrela da Amadora estão mesmo nos oitavos de final], demonstra a qualidade que existe na prova.

Romão destaca ainda a maior estabilidade financeira que os clubes têm demonstrado: “este ano não se fala tanto de ordenados em atraso, se calhar nesta altura no ano passado já estaríamos a falar de uns sete ou oito clubes, mas este ano só estamos a falar do Setúbal, do Fátima [que entretanto fechou portas] e do Praiense, que são casos que vêm de trás”, opina.

Novo formato na próxima época

Em maio, a FPF anunciou a adoção de um novo modelo da prova a partir da época 2021/2022, que inclui a criação da Terceira Liga e recupera o sistema de dois escalões entre a Segunda Liga e os distritais. A implementação desta nova competição exige que o formato do Campeonato de Portugal sofra alterações nas próximas épocas, a começar na que agora decorre.

 

Esta mudança só estava prevista para 2022, no entanto, o surgimento da pandemia adiantou o processo, que se tornou necessário e oportuno com o acréscimo de 22 equipas à competição [as equipas oriundas dos campeonatos distritais, mais o Desportivo das Aves SAD (que acabou por desistir) e o Vitória de Setúbal]. Muitos clubes pretendiam que a Terceira Liga arrancasse já esta época, mas a FPF não o fez “por respeito às regras e aos clubes”, considera Romão Afonso, até porque “ninguém avisou os clubes que isso ia acontecer”.

Para o criador da página “Campeonato de Portugal – Campeonato das Oportunidades” criar as duas ligas é não só uma “medida ajustada” como “urgente”: “temos realidades completamente diferentes: desde clubes profissionais, se calhar com mais poder e equilíbrio financeiro e instalações melhores que muitos clubes da Segunda Liga, até clubes completamente distritais, a treinar ao fim do dia e em que todos os jogadores têm uma primeira ocupação e jogam futebol à noite”, descreve.

A criação de uma Terceira Liga faz “todo o sentido” na opinião do comentador desportivo não só por permitir essa “separação” entre profissionais e amadores, mas também para dar melhores condições aos “jovens jogadores”, internacionais portugueses, para “crescerem mais depressa e com mais qualidade”, referiu.

Os obstáculos da pandemia

Ainda antes do início da nova época, as possíveis desistências de vários clubes por falta de condições financeiras era um dos temas mais abordados pelos intervenientes do campeonato: “falava-se que havia mais de 20 clubes que não iriam participar no Campeonato de Portugal, inclusive clubes que já andam cá há muito tempo”, recorda Romão Afonso. Porém, a hipótese da falta de equipas para a realização da competição revelou-se um falso problema, pois das 96 equipas inicialmente previstas foram apenas três desistiram antes do arranque da prova – Armacenenses [que não seria substituído], Desp. Chaves Satélite e Ginásio Figueirense.

Mais problemática se tem revelado a irregularidade do calendário, provocada por surtos ou casos de COVID-19 nos plantéis, não só para os jogadores, “que estão desde toda a vida habituados a jogar de domingo a domingo, com calma e serenidade”, mas também para os elementos extrajogo dos clubes: “mesmo que o clube e os jogadores sejam profissionais, alguns diretores e outros responsáveis podem ter outros empregos e ocupações e é um transtorno grande para toda a gente”, refere Romão Afonso.

Romão, que trabalha na comunicação do Anadia, acredita que o trabalho feito “fora de campo” irá ter impacto na classificação final e dá o exemplo do clube: “jogamos com um adversário que no dia seguinte testou positivo, e estivemos de estar 15 dias parados sem nenhum caso. Desde a quarta-feira passada [dia 18 de novembro] estamos numa fase em que estamos a jogar de três em três dias, e é muito difícil, uma gestão muito complicada”.

Outro fator negativo causado pela pandemia é a falta de adeptos nos estádios, que mesmo que não se manifestem em grande número na maioria dos jogos – a média de espectadores desta competição ronda os 300/400 adeptos – contribuem para a saúde financeira dos clubes: “Para um clube jogar em casa tem de pagar 1.000 euros, cerca de 600 euros para a FPF, 300 euros para a polícia, entre outros, o encargo é muito grande, e isso era diluído pela receita de bilheteira e do bar. Por menos espectadores que tivesse, era sempre uma receita que entra”, reflete.

Discrepâncias entre os clubes do litoral e do interior

A realidade geográfica do país tem reflexos no Campeonato de Portugal, onde anualmente se verifica uma predominância de equipas do litoral e um número mais reduzido de equipas de distritos do interior. A desistência do Ginásio Figueirense, equipa da Associação de Futebol (AF) da Guarda, e a renúncia à subida das três primeiras classificadas no respetivo campeonato distrital veio reavivar esta questão.

Segundo Romão Afonso, “aquilo que aconteceu este ano na Guarda não foi [resultado] da pandemia, tem acontecido nos últimos anos”. O historial recente de equipas do distrito não deixa margem para dúvidas: na época 2018/19, o Sporting de Mêda não conseguiu passar de dois pontos em 34 jogos, enquanto que na época passada, à data do cancelamento da competição, o Ginásio Figueirense estava no último lugar da tabela, a seis pontos da posição acima.

No caso concreto da equipa de Figueira de Castelo Rodrigo, Romão afirma que apesar dos “bons ordenados” que ofereciam, “ninguém queria ir jogar para [Figueira de] Castelo Rodrigo”. Este exemplo comprova a visão de que “no interior do futebol a gestão dos clubes é muito difícil”.

O exemplo mais evidente é o da AF Portalegre, que não tem nenhuma equipa nos campeonatos nacionais desde a época 2017/18. No entanto, o panorama parece estar a mudar, pois, assegura Romão Afonso, haverá uma equipa deste distrito a ingressar no Campeonato de Portugal na próxima época. Tudo porque duas equipas – Elvas e Arronches e Benfica, que estão nos três primeiros lugares da classificação do campeonato distrital – foram alvo de grandes investimentos.

Romão afirma que uma pessoa “esperta” que pretenda criar um clube não o fará nos distritos de Lisboa ou Porto, devido ao número de divisões distritais ser maior do que nos distritos do interior. O processo de subida ao Campeonato de Portugal, que nos dois principais distritos do país poderá demorar “quatro ou cinco anos se tudo correr bem”, pode apenas demorar um ano num distrito como o de Portalegre, “onde o campeonato é jogado por seis ou sete equipas”. Com isto, acredita que “Portalegre vai ser olhado como um distrito de investimento e ainda bem, porque acho que acabam por ganhar todos”, afirma.

A (falta de) ação do sindicato

Com o final abrupto da competição na época 2019/2020, motivado pela pandemia, foram vários os jogadores que se viram envoltos em dificuldades financeiras, causadas maioritariamente pela falta de salários. Com o objetivo de ajudar os colegas, um grupo de jogadores deste campeonato decidiu criar o movimento “Do Futebol Para a Vida”, com o qual várias figuras do futebol português rapidamente se solidarizaram.

Sobre a postura do Sindicato dos Jogadores neste contexto, a equipa do projeto “Campeonato de Portugal – Campeonato das Oportunidades” tem mantido uma postura crítica em relação ao organismo, acusando-o numa publicação feita em setembro, de ser “inoperante”. Romão Afonso justifica esta postura com a falta de resposta do Sindicato perante as tentativas de contacto que estabeleceram durante vários anos, revelando descrença sobre os objetivos e interesses perseguidos pela entidade liderada pro Joaquim Evangelista.

As críticas recaem também sobre o Governo. O cancelamento de todas as provas futebolísticas na época passada e o adiamento de todas as provas desportivas que iriam decorrer no fim de semana de 31 de outubro e 1 de novembro foram decisões polémicas, muito por não terem afetado a Primeira Liga, o que evidenciou uma diferença de tratamento por parte das entidades governamentais.

Os horários escolhidos para os jogos da Taça de Portugal, com os encontros que não envolviam equipas dos campeonatos profissionais a terem de ser disputados de manhã, também foram alvo de críticas: “isto não faz sentido nenhum. As equipas do Campeonto de Portugal de manhã não iam ter COVID, mas à tarde já iam apanhar COVID”. A justificação pode residir no desconhecimento que, na sua opinião, o governo tem da realidade desportiva do país para além da Primeira Liga de futebol.

Romão valoriza o trabalho que a FPF tem feito no sentido de viabilizar a realização do Campeonato de Portugal, que retomou por ser legalmente equiparado a uma competição profissional: “se não fosse a FPF a alertar para estes problemas todos, acho que simplesmente nem havia hipótese de jogarmos”.

O futuro

“Falar do Campeonato de Portugal é falar de uma diversidade muito grande, nunca podemos comparar umas coisas às outras”, afirma Romão Afonso, que lamenta que a qualidade de quem passa por este campeonato nem sempre seja devidamente reconhecida: “um jogador ou treinador que seja muito bom no Campeonato de Portugal não quer dizer que tenha uma porta aberta, já percebemos que é preciso ter muitas vezes os contactos certos, os números de telefone certos, os padrinhos certos”, alude.

O trabalho feito pelas diferentes páginas nas redes sociais e pelo Canal 11 no sentido de divulgar a competição será, na sua opinião, “fundamental para haver mais oportunidades e mais estímulos, sabendo que isto será sempre uma roda viva”. “Hoje estás no Campeonato de Portugal, depois podes subir, depois podes descer, mas acho que há cada vez mais qualidade e profissionalismo dentro do próprio campeonato, isso é bom”, conclui.

Artigo editado por Filipa Silva

Este artigo foi realizado no âmbito da disciplina TEJ II – Online