Nasceu a 17 de  setembro de 1950, numa família pobre, onde o pai era vendedor ambulante de chás e a mãe dona de casa. Em criança, destacava-se pela sua extrema reserva e apreciação da vida religiosa, ligada à oração e meditação. Mais tarde, chegou a criar uma banca de chás numa estação ferroviária em Vadnagar.

A entrada na vida política aconteceu aos dez anos de idade, quando integrou as reuniões matinais da Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS, Organização Voluntária Nacional), conhecida pelo seu radicalismo de direita hindu, que, na década de 60, vivia uma disputa ideológica com o povo muçulmano. Os motins de 1969, em Gurajat, consolidaram a polarização das duas religiões e provocaram a morte de cerca de 600 pessoas.

Aos 18 anos, casou-se com Jashodaben Chimanlal, privilegiando sempre uma vida discreta e longe de polémicas. Passou pouco tempo com a jovem escolhida e a união era desconhecida por muitos durante a sua carreira política, tendo só revelado publicamente o acontecimento, durante as eleições de 2014, quando se candidatou à chefia do Governo. Aos 28 anos, licenciou-se em Ciência Política pela Universidade de Deli e, posteriormente, dedicou-se totalmente à RSS.

Apoiantes de Narendra Modi durante a campanha eleitoral de 2014, em Deli.

Ascensão de Modi

Em 1992, Modi mudou-se para o Bharatiya Janata Party (BJP), com ideologias semelhantes ao RSS, mas com um modelo de organização e um objetivo comum às ideias do atual primeiro-ministro. O partido nasceu em 1980 e foi fundado com o propósito de contrariar a viragem secular do Congresso.  Modi defendia a aposta na economia neoliberal, a globalização e a política externa agressiva, que poderia tornar a Índia numa verdadeira potência regional.

Em 2001, após um terramoto que matou cerca de 20 mil pessoas e destruiu mais de 400 casas, o nacionalista hindu que assumia a chefia do governo estadual na altura, foi acusado de má gestão e foi afastado do cargo. Modi acabou por substituí-lo e tornou-se chefe do governo estadual da sua terra natal, Gujarat, permanecendo no cargo durante 12 anos.

Anos depois, Modi foi escolhido pelo partido BJP para se candidatar a primeiro-ministro da Índia, em 2014. A campanha eleitoral girou em torno de assuntos como o nacionalismo, a polarização religiosa e a melhoria das condições de vida dos indianos, através de programas de bem-estar social. O país atravessava uma grave crise financeira.

Narendra Modi disse aquilo que os indianos queriam ouvir e, a 26 de maio de 2014, conquistou a maioria absoluta nas duas câmaras do Parlamento, alcançou 29 dos 36 estados e entidades autónomas. A dinastia de Nehru Ghandi, do Partido do Congresso que governava o país até então, caiu por diversos fatores, nomeadamente, os maus resultados económicos, escândalos de corrupção e a pouca popularidade do candidato adversário.

Retórica nacionalista

Em 2019, garantiu mais cinco anos de mandato ao vencer as eleições gerais. Os indianos não deixaram de querer ver Modi na liderança do país. O desemprego estava em alta, os agricultores viram os seus rendimentos baixarem e a produção industrial estagnou. O seu discurso durante a campanha eleitoral foi marcado pelo conservadorismo e pelo desejo de uma Índia polarizada.

Distinguiu os nacionalistas (os seus apoiantes), dos anti-nacionalistas, que se opunham à sua ideologia.

Adotou uma postura de “vigia da nação” (Modi prometia proteger o país em “terra, ar e espaço”). A somar ao patriotismo, Modi garantiu desenvolvimento e benefícios sociais voltados para os mais pobres, o que aos olhos dos eleitores, foram os elementos-chave mais que suficientes para uma reeleição.

No final do ano de 2019, Modi assinou uma polémica lei, que discrimina a população muçulmana com o objetivo de “refundar” a Índia com base nos valores do hinduísmo, religião predominante do país. Cerca de 14% dos indianos são muçulmanos, 80% são hindus. A “perseguição” aos muçulmanos foi, desde sempre, um marco da trajetória política de Narendra Modi, o primeiro chefe de Governo indiano a assinar um texto que coloca em causa a Constituição da Índia de 1947, cujo pilar é o secularismo, ou seja, a liberdade de crença e a separação entre igreja e Estado.

O culto de personalidade 

Apesar da Índia nutrir, desde sempre, grande destaque às personalidades que a chefiam, Narendra Modi parece que veio quebrar os limites e ir mais além. Em 2017,  removeu as imagens de Mohandas Gandhi dos calendários publicados pela comissão governamental que supervisiona a produção de tecidos feitos à mão e mandou substituí-los por fotografias de si próprio, autoproclamando-se “o novo pai da nação“.

Mais tarde, os alunos do maior estado indiano, Uttar Pradesh, foram obrigados a irem à escola num domingo, para celebrarem o aniversário do “ídolo perfeito para as crianças”, título associado ao primeiro-ministro. Alusivos à figura iluminada de Modri, foram também produzidos filmes sobre a infância do político, como Chalo Jeete Hain (2018), um dos primeiros a ser lançado. Na narrativa, a vida de Modri era representada como divina, a pessoa escolhida para fazer a mudança, sem nunca descorar a humildade e o amor ao próximo.

No dia 24 de Fevereiro, o maior estádio de críquete do mundo – com capacidade para cerca de 132.000 espetadores, foi renomeado em sua honra, passando de estádio Motera para Estádio Narendra Modi.  Quatro dias depois, a agência espacial do país, a Satish Dhawan Satellite, enviou para o espaço uma fotografia de Modi através de um nanosatélite.

Soberania e extremismo

Ao longo do seu percurso político, Modi adotou uma postura singular. O Governo não é ouvido e o primeiro-ministro acaba por tomar as decisões praticamente sozinho. Em 2016, aboliu as notas e moedas de valores elevados, tornando nulo 86% da moeda que circulava no país, quando cerca de 90% das transações feitas na Índia são realizadas em dinheiro vivo. Esta decisão foi tomada como solução para a doença do “dinheiro preto” (proveniente de meios ilegais). Esta medida foi anunciada pelo primeiro-ministro quatro horas antes de ser implementada, o que levou ao suicídio de vários indianos e o desemprego de, pelo menos, 1,5 milhões pessoas.

Os desastres políticos, sociais e económicos da última metade da década estão lado a lado com o culto à figura de um político, que se veio intensificar, com a pandemia da Covid-19.

Logo no início da crise sanitária, Modi declarou o maior confinamento do mundo, durante 14 horas – das sete da manhã às nove da noite – em todo o país (Janata curfew). O que parecia ao início um grande sucesso, ao deixar as ruas indianas praticamente vazias, facilmente se transformou num “bónus” ao vírus, já que, às 17 horas do mesmo dia, os cidadãos indianos saíram das casas, formando procissões, como forma de agradecimento aos profissionais de saúde. Ainda assim, o líder do país continua a ser tão aclamado, que até os certificados de vacinação contra o coronavírus têm a sua imagem representada.

A Índia atravessa um processo de rompimento com os ideais democratas. Outrora conhecida pela sua colorida diversidade e por Mahatma Gandhi, hoje é caracterizada pela intolerância religiosa, violência contra as minorias e um hegemónico fundamentalismo hindu que parece, cada vez mais, ameaçar a maior democracia do mundo.

Artigo editado por João Malheiro