A Escola de Moda do Porto (EMP) tem um novo projeto em curso. A proposta, que foi lançada por uma empresa de roupa de segunda mão, resultou numa parceria que visa combater o desperdício têxtil.

Primeiro, reviram-se os sacos e seleciona-se uma peça. Depois, repensa-se a sua forma e utilidade. É assim que decorre o novo projeto de upcycling que a Escola de Moda do Porto (EMP) tem em mãos desde novembro.

Contactada pela MyCloma, uma empresa de venda online de roupa em segunda mão, a EMP aceitou a proposta de reutilizar as peças da empresa que são consideradas como “lixo”. Seja por estarem manchadas ou estragadas, seja por ninguém querer adquiri-las, as peças chegam à escola portuense a fim de receberem uma segunda vida.

Upcycling é um processo de reaproveitamento que combate o desperdício têxtil e que tem vindo a crescer nos tempos mais recentes. Com cortes e costuras, bem como com um repensar criativo, um vestido já fatigado pode tornar-se numa blusa e saia personalizadas. Por serem confecionadas à mão, são também peças únicas e meticulosamente trabalhadas.

A oportunidade que a EMP recebeu, e reencaminhou para os seus alunos, consiste justamente num processo de recriação sustentável de peças de vestuário. De acordo com Joana Bourbon, coordenadora dos cursos da escola e orientadora o projeto, a escola é pioneira em Portugal “a criar procedimentos de ensino de reciclagem”. Dado que “a indústria de vestuário é a segunda mais poluente”, a pertinência desta iniciativa escolar ainda se torna mais valiosa. E além de lançar os estudantes para o mercado de trabalho da moda, é igualmente uma boa prática que acorda uma consciência ambiental.

Contudo, o upcycling é uma atividade que nem é fácil nem é de execução imediata. Por ser “um exercício novo e muito interessante”, Joana Bourbon afirma que é algo que exige muita criatividade e que obriga a novas perspetivas. Sendo que “olhar para o lixo e retirar do lixo uma novidade” é o maior desafio com o qual se é confrontado. Maior ainda quando se trata de jovens criadores que frequentam o nível secundário de ensino.

As seis alunas que estão a colaborar neste projeto foram as que se voluntariaram perante o lançamento da proposta. Ainda que o projeto envolva anos e cursos distintos, apenas estas seis estudantes mostraram vontade em participar. Marina Mota-Prego, a diretora pedagógica da escola, afirma que “no início houve alguma falta de visão por parte dos alunos”, uma vez que o grande objetivo de quem vai para um curso de moda é, geralmente, “chegar ao final do curso e produzir a própria coleção de raiz, com tudo o que sempre imaginou – a forma, os tecidos, tudo de novo.” Devido à motivação crescente que os alunos têm vindo a demonstrar, Marina Mota-Prego acredita que a adesão seria muito maior se a proposta fosse lançada agora.

Raquel Gomes, de 20 anos, e Margarida Fernandes, de 18, são duas das colaboradoras do projeto. São finalistas e voluntariaram-se no âmbito da sua Prova de Aptidão Profissional (PAP), sendo que ambas veem no projeto uma via sustentável que muito urge no mundo da moda. No caso de Margarida, houve uma motivação pessoal adicional que a impulsionou, visto que a maior parte do seu vestuário “é resumida a peças de segunda mão”.

Segundo as alunas, o início do projeto foi marcado por uma pesquisa teórica profunda, cujos frutos se refletem agora no trabalho prático. Se inicialmente se sentiram apreensivas com o desafio, agora as alunas já ajustaram o novo projeto à rotina escolar. Raquel afirma haver um constante trabalho em equipa: “fora das aulas tentamo-nos reunir para continuarmos a falar dos nossos projetos, vamos sempre trocando ideias e ajudando-nos uns aos outros”.

Quanto à pertinência do projeto, a diretora da escola associa a moda a um forte “papel social”, pelo que a recriação de peças de vestuário tem um claro futuro num mundo onde urge um maior apreço pelo ambiente.

O primeiro lançamento do projeto será de cariz social, com as receitas das vendas das peças transformadas a reverterem para uma instituição de caridade. No entanto, este é apenas o princípio de uma parceria da Escola de Moda do Porto com vista a promover uma consciência ambiental.

Artigo editado por Filipa Silva

Esta reportagem foi realizada no âmbito da disciplina de AIJ Televisão – 3º ano