Em entrevista ao JPN, o novo presidente da FAP fala sobre as prioridades do mandato, o problema do alojamento estudantil e o Caderno de medidas que a federação criou a propósito das Legislativas de março. Esta sexte-feira, a FAP lança uma campanha de sensibilização eleitoral.

Francisco Porto Fernandes, de 21 anos, é o presidente mais novo eleito para a direção da Federação Académica do Porto (FAP). Foi escolhido em dezembro e parte para o mandato com um “projetos de soluções”. É sobre elas que se fala nesta entrevista, em que o dirigente associativo apresenta também algumas das propostas que a FAP compilou a pensar nas eleições antecipadas de 10 de março. Um Caderno de Medidas que inclui, entre outras coisas, a proposta de criação de uma Secretaria de Estado da Juventude e das Futuras Gerações, sob tutela do primeiro-ministro.

A “brutalidade” do custo do alojamento para os estudantes e jovens, os níveis de imigração jovem no país e a necessidade de renovação dos métodos de ensino no superior, foram alguns dos tópicos abordados. “Não é compreensível que um professor dê uma aula a ler PowerPoint. Nós todos, felizmente, sabemos ler”, referiu o dirigente associativo a propósito.

Esta sexta-feira (9), a FAP lança uma campanha de sensibilização eleitoral, no Polo Universitário da Asprela, com a inauguração de outdoors e uma ação de contacto na rua e tem já pedidas reuniões aos partidos que concorrem às eleições. Para já, o discurso político não tem sido auspicioso: “Entristece-me muito ainda não ver nenhum partido político a falar de ensino superior e dos desafios de entrada no mercado de trabalho.”

JPN – É o presidente mais novo de sempre na FAP. Sente que isso traz uma responsabilidade ainda maior?

Francisco Fernandes (FF) – Não. Sinto que tenho é de dar o exemplo do que nós defendemos também no mercado de trabalho. Nós, jovens, sentimos o preconceito etário por parte dos outros, que dizem muitas vezes que um jovem não pode estar em certo cargo. Não é por ser mais novo que posso ser pior ou ser menos bom presidente da FAP. Tenho de provar que a idade é apenas um número e seja aos 21 ou aos 25 anos, tenho de ser capaz de servir a Academia.

JPN- Fazia parte da direção no mandato de Ana Gabriela Cabilhas. Agora, é presidente e certamente que vão existir algumas mudanças. O que destacaria?

FF – O meu percurso no associativismo começou na Associação de Estudantes (AE) na Faculdade de Economia do Porto (FEP) onde fui vogal e depois presidente. Aqui, na Federação Académica do Porto, entrei em 2023 com a Gabriela, fui vogal da direção e, obviamente, há uma linha de continuidade com o trabalho desenvolvido pela FAP nos últimos anos. Mas há também claramente ambições diferentes para a FAP e projetos de soluções. Ao longo deste mês já temos vindo a tentar estar sempre da parte da solução, porque muitas vezes os estudantes identificam só o problema e, isso, o governo também já identificou. Nós, estudantes, temos a obrigação também de indicar um caminho e é por isso que agora, no nosso Caderno de Medidas para as eleições legislativas, temos objetivos e medidas concretas para a legislatura.

Depois, o segundo grande objetivo do mandato é o combate às desigualdades sociais. E quando falamos disso, falamos do combate antes, durante e após o ensino superior. A FAP luta por políticas do ensino superior equitativas que estejam do lado dos que têm menos posses, mas também não podemos esquecer o acesso ao ensino superior. Em Portugal, temos 25% de estudantes em colégios particulares e 50% têm explicações e, por isso, Um dos projetos que temos para o ano da FAP é fazermos no antigo auditório, aqui no edifício, um centro de apoio ao estudo para estudantes carenciados do ensino secundário. para estudantes carenciados do ensino secundário. No ensino superior, temos a batalha pela emancipação jovem e pela valorização do ensino superior num país em que 30% dos jovens vivem fora de Portugal. O combate à emigração jovem qualificada terá de ser sempre uma bandeira da FAP, porque o melhor que um país tem é o seu capital humano.

 JPN – A FAP inaugura esta sexta-feira uma campanha de sensibilização eleitoral com outdoors, no Polo Universitário. Há alguma coisa que nos possa adiantar sobre isso?

FF – O outdoor que vamos estrear tem um foco muito simples: sensibilizar a sociedade civil e os mais jovens para o problema da nossa geração, que é viver pior do que a anterior e sensibilizá-los com evidência, provas e factos. Tem de ser feito algo palpável, para conseguirmos mudar este que é um país que não é para jovens.

JPN – Esperam encontrar muitos jovens?

FF- Vamos fazer a inauguração, mas ao mesmo tempo uma sensibilização às pessoas que passem na rua, com entrega de informação e pequenos desafios a perguntar sobre estatísticas. Não queremos fazer só a estreia dos outdoors, que é uma coisa momentânea, mas ter ainda um momento de contacto com a população e mostrar às pessoas mais velhas a nossa realidade. Além disso, pretendemos incentivar as pessoas para que no dia 10 de março se desloquem às urnas e votem. No fundo, este é o voto de uma geração.

Um dos projetos que temos para o ano da FAP é fazermos no antigo auditório, aqui no edifício, um centro de apoio ao estudo para estudantes carenciados do ensino secundário.

JPN- Falando agora do Caderno de Medidas, existe um foco tanto no ensino superior quanto na entrada do mercado de trabalho de jovens licenciados. O preço médio dos quartos no Porto está, de acordo com os dados que vocês citam, acima dos 400 euros. Este é um impedimento significativo para os jovens seja em período de faculdade ou início de carreira.

FF – Sim, claro. O alojamento é o grande entrave ao ensino superior em Portugal. Estamos a falar de 90% dos custos de frequentar o ensino superior. Um quarto, em média, são 410 euros aqui no Porto e, portanto, o objetivo da FAP é que até 2028, existam 50.000 camas em residências universitárias públicas, sendo que isto implicava o cumprimento do Plano Nacional de Alojamento no Ensino Superior (PNAES).

JPN – Acredita que o PNAES se vai cumprir até 2026?

FF- O PNAES não vai ser cumprido, com este mindset claro que não. Há poucos dias a Federação Académica chamou a atenção ao Governo e aos partidos políticos. A FAP não vai estar caladinha para depois em setembro fazer queixa. Não. É antes do problema voltar a ser mediático, avisar. Estão 3% das camas feitas desde 2018 e o Governo responde que está tudo a caminhar como planeado. Lamento muito, mas em 2018 fazer 400 camas, quando a FAP, com estudantes voluntários, faz 40, não é admissível.

“O PNAES não vai ser cumprido”

Francisco Fernandes expõe objetivos e propostas para a próxima legislatura. Foto: FAP

 

JPN – Não é cumprido por falta de dinheiro, de vontade ou outro motivo?

Em 2018, fez-se o lançamento do PNAES com muita pompa e circunstância, mas depois não havia fundos nem vontade política para isso. Depois, veio o PRR e agora há fundos, mas não há materialização e não são dados mecanismos às entidades promotoras das residências para conseguirem ter a antecipação de fundos que lhes permita construir as residências. É preciso cumprir o PNAES, mas é também preciso ajudar a classe média.

Agora estamos a ajudar apenas os estudantes bolseiros que têm residência ou complemento de alojamento. Contudo, uma família que tenha dois filhos no ensino superior está a pagar 800 euros por mês de alojamento, é uma brutalidade. São uma classe média baixa. Muitos deles estão ali porque, por 10 ou 15 euros, ficaram sem ação social e não nos podemos esquecer deles. E para isso também temos uma proposta para que os agregados familiares que tenham rendimentos até 28 IAS (Indexante dos Apoios Sociais) – sendo que as bolsas de ação social são até aos 23 IAS -, e que tenham uma taxa de esforço superior a 35% [em despesas de alojamento], tenham um apoio para o alojamento de 50% do valor máximo do complemento ao alojamento. Se nós estivermos a apoiar 100% do valor, estamos a contribuir para a inflação no mercado, se estivermos a apoiar apenas uma parte, os preços não inflacionam tanto. Isto vai levar a uma de duas coisas: vai, por um lado, dar resposta aos estudantes que mais precisam e, por outro, aumentar a oferta no mercado.

Em termos de preço pode até não diminuir, mas tendo em conta a subida do salário, seria menos significativo. Isto tem de ser uma prioridade para o próximo governo. Entristece-me muito ainda não ver nenhum partido político a falar de ensino superior e dos desafios de entrada no mercado de trabalho.

JPN- A FAP ergueu uma residência com 40 camas. Como é que está a correr a gestão dessa residência?

FF- Sim, felizmente a correr muito bem. Enquanto presidente da FAP, devo dizer que é se calhar a experiência mais transformadora que tive nos meus últimos anos. A FAP, a Gabriela, que foi a presidente do mandato em que a residência foi construída, nunca pensou o impacto que nós podíamos ter na vida daquelas pessoas. Claro que temos desafios diários, mas o importante é que a FAP, na matriz social, está a fazer a diferença e é a prova de que os estudantes podem ser parte da solução. E lanço o repto às estruturas nacionais e ao nível da União Europeia que se atirem de cabeça, porque nós estudantes temos muito mais soluções do que mera visão do problema.

JPN- A residência tem as vagas todas ocupadas?

FF- Sim, temos 40 vagas cheias há duas semanas. Tivemos algum tempo com 39 pessoas, mas agora já temos todas as vagas ocupadas.

JPN – Sabemos que um lote do terreno do antigo quartel de Monte Pedral vai ser dedicado a uma futura residência de estudantes. Há previsões de datas?

FF- A minha opinião sobre isso e a ideia que tenho é que está em processo. Tal como estão em processo as residências do Plano Nacional de Alojamento no Ensino Superior. Ou seja, como diz o governo, 60% estão em licenciamento, em aprovação do projeto, construção, etc.. Ou seja, não há data.

JPN – No Caderno de Medidas refere a necessidade de realizar um processo de certificação das competências dos docentes e um ensino mais ativo. Como é que se concretizaria efetivamente essa certificação? E o ensino que temos atualmente está atrasado no tempo?

FF – Começando do fim para o início: claro que está atrasado. Se formos comparar uma fotografia de há 100 anos numa sala de aula e se entrarmos hoje numa faculdade aqui, reparamos que o modelo de ensino está igual. Ou seja, o mundo mudou, Portugal mudou e o ensino superior não se adaptou e se não evoluir o ensino vai falhar. Nós temos uma proposta da semana de quatro dias que mais do que menos um dia de aulas, consiste numa mudança estrutural da maneira como ensinamos. Não é compreensível que um professor dê uma aula a ler PowerPoint. Nós todos, felizmente, sabemos ler, não precisamos que ninguém leia para nós. As aulas têm de ser mais expositivas, ter mais contacto e serem menos unilaterais.

Relativamente à questão da certificação da formação docente, se repararmos, até ao 12.º ano, todos os docentes têm formação pedagógica. O argumento que nos é dito é que as pessoas do ensino superior não precisam de formação, porque estão a ensinar adultos. O que é curioso, porque os formadores do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) têm de ter formação pedagógica. Nós dizemos que somos doutorados, portanto, não temos mais nada a aprender. E é óbvio que temos a aprender. Não é por acaso que se calhar os melhores investigadores e os melhores cérebros da Academia do Porto são os que os estudantes sentem que menos aprenderam com eles. Porquê? Porque são pessoas sem capacidades pedagógicas.

Quando falamos em capacidades pedagógicas, falamos de coisas tão simples como ter um auditório de 200 pessoas distraído e de ter pequenas técnicas que se aprendem nestas formações para voltar a captar a atenção do público. Não estamos a falar de formações de anos, são formações curtas.

JPN – Formações que seriam obrigatórias para todos os docentes?

FF- A nossa visão é moderada e os novos docentes teriam de ter essas formações. Para os restantes, de modo a haver progressão na carreira, a formação pedagógica seria valorizada, ou seja, existiram incentivos à formação pedagógica para os docentes.

JPN – O que é que pode trazer de benéfico aos estudantes manter o Ensino Superior e a Ciência sob a tutela de um ministério para o setor?

FF – O ensino superior não tem sido uma prioridade para o país e um ministro da Educação, tendo em conta o que é a educação até ao 12.º ano, desde a questão dos professores até às mudanças de currículos, não vai ligar ao ensino superior. Um ministro não consegue ser ministro da educação de manhã e tratar do ensino superior à tarde.

O ensino superior tem de ser um desígnio nacional e a investigação e o conhecimento são a melhor chave para o desenvolvimento económico e para o crescimento económico que tanto falamos agora em dias de eleições. Portanto, um Governo que não tenha Ministério do Ensino Superior e da Ciência é um governo que não tem essa prioridade pelo conhecimento superior, pela investigação, pela ciência. É importante até para não termos de andar a tentar jogar com a agenda de um “super ministro”. Depois, coisa diferente é o Ministério do Ensino Superior e o da Educação que têm de ter uma ligação maior do que têm atualmente. Um superministério iria tirar poder político ao ensino superior. Basta ver quantas vezes falamos, por ano, do ensino superior ou da educação.

JPN- Vamos ter agora uma mudança de governo. E qual a retrospetiva que a FAP faz do trabalho do Ministério do Ensino Superior?

FF – Relativamente ao Ministério da Educação, foi alterado conjuntamente com o Ministério do Ensino Superior, o acesso ao ensino Superior. A visão da FAP era um bocadinho mais moderada, ou seja, tendia para um bocadinho menos de peso dos exames, mas não nos chocou porque foi próxima na posição que nós assumimos e que as nossas associações estudantis assumiram em assembleia geral.

Francisco Fernandes pretende reunir com os partidos políticos para debater o tópico da educação em Portugal. Foto: FAP

 JPN – Acreditam que as medidas previstas com o Caderno de medidas ajudariam a imigração a diminuir?

FF – Sim, temos de ser sinceros, Portugal é uma economia pequena numa União Europeia forte, portanto, é normal ter imigração. Mas Portugal não tem de ser o país da Europa com mais imigração jovem qualificada. Acreditamos que é fundamental existirem políticas concretas para fixar os jovens em Portugal. É por isso que temos esta, proposta, que é simbólica, que é da Secretaria de Estado da Juventude e das Futuras Gerações, ficar sob tutela do primeiro-ministro. E porquê o primeiro-ministro? Porque é algo transversal a toda a área da governação, a juventude não é o IPDJ. A juventude não é cortar fitas ou distribuir fundos à juventude.

JPN- Os jovens são frequentemente desvalorizados?

FF – A arte política deveria ser tornar a vida das pessoas melhor. Mas, muitas vezes, é ganhar a próxima eleição. Nós precisamos de um governo que diga: isto aqui era bom para a próxima eleição, mas não pode ser, porque vai prejudicar a próxima geração. Só alguém sob a tutela do primeiro-ministro como um poder transversal em todas as áreas da governação é que terá poder político para fazer as reformas e as mudanças que o país necessita para mantermos os nossos jovens cá. Portugal, nos últimos anos, perdeu cerca de 18 mil milhões de euros que investiu em educação e que não tiveram retorno porque fomos obrigados a emigrar em busca de um projeto de vida.

“Portugal não tem de ser o país da Europa com mais imigração jovem qualificada.”

JPN – A FAP está a tentar que o Caderno de Medidas chegue aos partidos políticos?

FF – Sim, enviámos o Caderno de Medidas a todos os partidos políticos. Vamos fazer pedidos de reuniões e receber todos os partidos que assim o pretendam. Enviamos também para o Presidente da República e temos a missão de que o caderno chegue a todos os líderes partidários, principalmente, aos candidatos pelo distrito do Porto, para que tenham em atenção as propostas e, quem sabe, incluir nos próprios cadernos reivindicativos dos programas para as legislativas de 2024. Todos somos poucos para ser a voz desta geração, a primeira a poder viver pior do que os seus pais. Os salários são precários, a habitação um luxo. Se continuar assim não vamos continuar em Portugal a fazer o nosso projeto de vida.

Editado por Filipa Silva