A Associação de Futebol do Porto (AF Porto) desenvolveu um estudo que visa criar um conhecimento mais aprofundado sobre o futebol distrital não profissional. Com início em maio do ano passado e intitulado de “Raio-X”, o projeto foi desenvolvido por uma equipa multidisciplinar que, através da realização de um inquérito, analisou 143 clubes (valor correspondente a 90% de aderência ao estudo).

Na abertura da cerimónia de apresentação do estudo, que ocorreu a 4 de janeiro no auditório da associação, o presidente da AF Porto, José Manuel Neves salienta a necessidade de questionar os clubes para “conhecer de forma concreta e completa os seus problemas”. O trabalho, cuja missão inclui a identificação de lacunas na modalidade, incidiu, portanto, em quatro grandes eixos: Orçamento e Sustentabilidade; Recursos Humanos e Estrutura Organizacional; Infraestruturas e Condições e Presença Digital.

José Manuel Neves na apresentação do “Raio-X”. Foto: AF Porto

Entre as principais conclusões do estudo, pôde apurar-se que os clubes em questão, afiliados na AF Porto, movimentam 10 milhões de euros – um valor que engloba os orçamentos dos clubes entre a Liga 3, Campeonato de Portugal e futebol distrital. No entanto, atendendo ao facto de, em muitos casos, os patrocínios e as bilheteiras serem insuficientes para a gestão do clube, este investimento é maioritariamente assegurado pelas autarquias. De acordo com o estudo, 94% dos clubes têm receitas provenientes das Câmaras Municipais, sendo que 69% admite que estas são a maior fonte de sustento.

No que concerne à vertente de recursos humanos, são vários os problemas que assolam o setor. Começando pelos funcionários, foi apurado que mais de metade (53%) dos emblemas da associação não tem nenhum – e, naqueles em que se verifica a sua existência, apenas 49% são remunerados. Ainda neste campo, surge uma outra preocupação: a preparação. De acordo com o estudo, 72% dos clubes atesta que os colaboradores carecem de formação especializada.

O estudo mostra ainda que apenas um em cada quatro colaboradores dos clubes são do sexo feminino. Apesar disso, verifica-se uma intenção em contornar a problemática, já que 85% dos clubes revelou querer investir no futebol feminino ao longo dos próximos cinco anos.

Uma das maiores fragilidades detetadas nos clubes são as infraestruturas, já que apenas 63% dos clubes tem instalações desportivas próprias. No entanto, o “Raio-X” revela que cada clube tem o potencial para captar mais 17% dos moradores do seu concelho para sócios.

Como forma de investir na visibilidade denota-se uma forte presença digital, com a quase totalidade (98%) dos clubes a utilizar redes sociais – 48% afirma inclusive que as utiliza como principal meio de comunicação e 46% serve-se das plataformas para transmitir jogos.

Corrigir falhas para o futebol não-profissional crescer

Depois de analisados os dados, o AF Porto delineou um plano de ação para combater as problemáticas identificadas. Nesse sentido, no documento com os resultados do estudo, disponibilizado ao JPN, é indicada a intenção de criar um gabinete estratégico e de serviço centralizado aos clubes, derivado da carência de recursos humanos e financeiros detetada. Assim, a associação poderá ajudar a facultar serviços e consultoria.

Quanto ao facto de haver falta de formação entre a grande maioria dos colaboradores, a AF Porto quer criar um “HUB do conhecimento e qualificação”. Em conversa com o JPN, Rui Sousa, diretor de comunicação da AF Porto, esclarece que, nesta medida, está incluída uma melhoria e personalização da formação dada aos dirigentes e agentes desportivos em áreas como comunicação ou gestão. No geral, “dotar as pessoas que estão nos clubes de conhecimento especializado nas áreas em que elas atuem”, remata.

Finalmente, no setor das infraestruturas, traçam-se medidas para uma melhoria geral dos clubes. Rui Sousa explica que, nesse sentido, a Federação Portuguesa de Futebol já prevê estender a mão através do programa “Crescer 2024” – Melhoria das Infraestruturas, uma medida lançada em parceria com as Associações Distritais. Até agosto do ano passado estiveram abertas candidaturas, tendo agora a atribuir cerca de 860 mil euros pelas selecionadas

O diretor de comunicação fala ainda da Academia da AF Porto, cuja construção está prevista para o Parque da Prelada, no centro da cidade do Porto, mas ainda sem prazo definido para o início das obras.  Como é possível ler na página da AF Porto, o projeto, que tem como parceira a Santa Casa da Misericórdia do Porto,”prevê a construção de dois campos de futebol relvados (um deles de futebol de 11) e de outro campo de futebol de 11 de relva sintética, além de um conjunto de infraestruturas desportivas necessárias para fazer face às necessidades dos três espaços.”

Quanto às necessidades diretas dos clubes, Rui Sousa diz que intenção é “dar as melhores condições possíveis” aos espaços e jogadores para que possam evoluir. Fala na construção de balneários (uma medida crucial particularmente nos clubes que desejem abrir uma equipa feminina), na criação de novos campos e bancadas e renovação de relvado. Menciona também a substituição de iluminação para lâmpadas LED (uma solução mais económica e sustentável), já que alguns clubes se queixam que a iluminação fraca (ou falta dela) “não permite treinar depois das 19 horas” – uma mudança que, apesar de parecer pequena, permitirá abrir mais escalões, ter mais pessoas a treinar e aumentar o tempo disponível em campo, principalmente no inverno. 

O documento do projeto “Raio-X” vai ser disponibilizado na íntegra, nos próximos dias, através dos canais oficiais de comunicação da Associação de Futebol do Porto.

 

Artigo editado por Paulo Frias